|a passo e passo|

aos poucos voltar ao que era.
voltar a ter tempo para ler, para escrever, para pensar.
aproveitar os tempos mais calmos, em que o escritório parece quase vazio, e organizar as ideias.
preparar listas com almoços e jantares, listas de compras, listas de coisas a fazer.
esta nova realidade – papel de mãe + novo emprego – desorientaram-me completamente fazendo com que as dificuldades em manter o foco sejam enormes.
aos poucos consegui voltar a encontrar tempo para ler [sem adormecer entre uma página e outra]. consegui acabar o livro que começara há meses e ter já um novo a meio.
aos poucos, consegui voltar aqui. para ler o que por cá se passa e para descomprimir entre teclas.
aos poucos, a passo e passo, vou conseguindo pensar numa outra dimensão que não apenas aquela que me ocupa a grande maioria do tempo.

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|a passo e passo|

|luz de presença|

trocamos o escuro total pelo ponto de luz.

trocamos a porta aberta pela porta encostada.

trocamos os sonos prolongados por momentos temporários de descanso.

trocamos toda a racionalidade pela emoção de cada momento.

já lá vão cinco meses. cinco meses de aprendizagem. cinco meses a viver com o coração do lado de fora do peito (tal como me haviam dito que iria acontecer).

damos por nós a fazer as figuras mais parvas entre os corredores de supermercado só para te sacarmos uma gargalhada das boas. é ver-nos de rabo para o ar, no chão da sala, enquanto te fazemos cócegas na barriga. é ver-nos rebolar – no chão, na cama ou no sofá – para te mostrar como se faz e para te fazer rir, uma vez mais.

fazemos vozes parvas, fazemos ruídos estranhos, rimos com e sem vontade apenas para ver os teus olhos a brilhar.

falamos baixinho, deixamos recados, andamos em bicos de pés para que nada interrompa o teu sono.

deixo-te dormir no meu colo. deixo-te ficar para sentir o teu calor, a tua respiração. acabamos por ficar os três no colo uns dos outros para aproveitarmos o calorzinho bom do teu embalo.

olho-te no berço e só me apetece pegar-te, colar-te a mim e deixar-te dormir.

ontem deixei-te, pela primeira vez, por mais de duas horas. ontem, mesmo sabendo que estavas bem, doeu-me deixar-te. tínhamos as manhãs sempre para nós as duas. ficávamos na ronha das mantas, enroladas no sofá, enquanto tu quisesses. ontem senti o colo vazio pela primeira vez e custou. [hoje ainda custa, e amanhã vai continuar a custar, mas sinto que vai ser bom para ambas].

hoje passam exatamente 5 meses desde que te pegamos no colo, desde que te vimos e te sentimos do lado de fora do corpo. hoje passam 5 meses desde que aprendemos a dormir com um ponto de luz.mafalda

|luz de presença|

| 3 meses|

há 3 meses atrás tudo mudou.

senti algo que nunca sentira antes. as dores e a emoção são incomparáveis, inesquecíveis e difíceis de colocar em palavras.

recordo cada segundo daquele dia, desde a primeira contração ao momento em que te colocaram no meu peito. os meus olhos alcançavam um ser tão pequenino que era, na realidade, maior do que o mundo inteiro. um pequeno ser capaz de encher toda uma vida, uma série de vidas que aguardavam a tua chegada.

a partir daquele momento, tudo mudou. a minha tolerância, a minha paciência, a minha capacidade de amar.

a partir daquele momento, tudo mudou. um ser tão pequeno fez de mim a mais feroz das feras e a mais doce das criaturas.

esta volta de 360º deixou a minha vida de pernas para o ar na mesma medida em que colocou todos os pontos nos is.

[apesar de não ser fã, esta música ficou para sempre na minha memória graças à equipa que te ajudou a nascer e que decidiu colocar música para ajudar a relaxar. Obrigada, Enf.ª Bebiana e Enf.ª Sabrina!]

| 3 meses|

| conhecer-te |

Os dias passam a uma velocidade incrível…

Olho para o lado e vejo-te crescer um pouco a cada dia. Percebo-o pelo espaço que ocupas no meu colo. Aos poucos, os teus braços e pernas vão para lá do meu peito e não consigo deixar de pensar no dia em que terei dificuldade em envolver todo o teu pequeno ser no meu regaço.

Decoro-te o cheiro e os traços de recém-nascido. Decoro-te os gestos involuntários [mesmo aquele que me pareceu uma carícia tua no meu rosto enquanto te amamentava]. Decoro-te a respiração tranquila, o queixo tremido e os pequenos gemidos que vais deixando escapar por entre uns lábios perfeitamente desenhados. Admiro a tua pele lisa, os pés compridos e as mãos de dedos longos.

Demoro-me a observar-te enquanto escrevo. Não quero perder nada de ti, deste tempo só nosso, desta natureza tão perfeita.

Um mês passou a voar e já não nos consigo imaginar sem este pequeno ser que nos enche toda a casa, toda a alma e todo o coração.

[por muito que não goste da voz nem da cantora, gosto da música e do “conceito”]

| conhecer-te |

| filha de sua mãe |

Observar a minha mãe com a minha filha no colo faz-me perceber claramente de onde venho.

reconhecer-me no papel de mãe apenas por ouvir a forma como a minha mãe a acalma. Reconhecer nas palavras da minha mãe a minha própria voz, as minhas palavras.

ouvir a minha mãe acalmar a minha filha é ouvir-me a mim… Ou vice-versa.

Os sons, os vocábulos, as palavras inventavas, a linguagem “abebezada”…

o olhar com um misto de ternura e desespero perante um choro indecifrável… Um colo pronto a acolher e uns braços prontos a envolver no mais terno dos afagos.

hoje, naquele que é designado como Dia dos Avós, não podia estar mais certa em como a minha filha tem os melhores avós do mundo.

 

| filha de sua mãe |

|difícil dizer por palavras|

é difícil descrever a primeira vez que te senti.

sentir mesmo.

sentir por fora e não por dentro.

sentir como se te colocasse a mão sobre os ombros e tu te voltasses para ver quem é. sentir como quando uma bolha de sabão nos rebenta na mão.

recordo o momento, recordo a hora e o dia.

recordo a mensagem que enviei ao teu pai e lhe contei que já te conseguiria sentir.

deixaste de ser real apenas no ecrã, no ecógrafo ou na minha barriga.

passaste a ser real para quem aguarda a tua chegada sem ter o mesmo privilégio que eu.

dizem que me ouves desde sempre. eu acredito que sim, mesmo que fale contigo apenas mentalmente, mesmo que tenhamos longas conversas sobre os dias que virão sem nunca ninguém nos ouvir uma palavra.

continua a não ser fácil fazer-me ouvir em voz alta. continua a não ser fácil exteriorizar o que se passa cá dentro. continua a não ser fácil fazer com que nos compreendam. continua a não ser fácil colocar em palavras tudo o que se vai sentindo por estes dias.

não sou fã deste estado mas estou a aprender a respeitar os sinais, os momentos e os dias que passam.

reconheço o privilégio e a responsabilidade. reconheço – e agradeço todos os dias – a fortuna destes momentos.

aprendo a esperar, a respeitar o teu, o meu e o nosso tempo.

não conto o tempo que falta… apenas o que já passou com a certeza de tudo estar a fazer para que o que aí vem seja bom, seja único e seja nosso – por inteiro.

ignoro as muitas histórias e confio na natureza e na medicina, confio nas estatísticas e nos sinais. acima de tudo, confio no amor e no carinho de quem te receberá por inteiro.

e isto é o #melhordomeudia, todos os dias, desde o dia em que te tornaste real.

|difícil dizer por palavras|

|fecho central|

é o “click” do fecho central das portas do carro que liga e desliga a minha mente.

mal saio de casa, é este pequeno barulho que coloca o meu cérebro em modo “pro” e me impede de afundar nos meus próprios problemas, nos assuntos pessoais, nas confusões que se arrastam porta de casa adentro. é este “click” que me permite focar no essencial, que me permite concentrar e resolver as questões profissionais que me absorveram durante toda a semana.

este “click” dá-se segundos depois de colocar o carro em marcha, tão rápido quanto o diabo esfrega um olho. a partir daqui, entramos em modo piloto automático, com uma série de questões em mente, processos, listagens, plantas e mapas. o momento é único e exige concentração máxima.

horas depois, regresso ao carro e dá-se novo “click”. agora é tempo de voltar a casa. é tempo de pegar na vida que estava em stand-by e reactivá-la. é tempo de pegar na vida e resolver. um problema de cada vez. é tempo de pegar na vida e encontrar novos caminhos.

enquanto vou no carro, permito-me a que as lágrimas corram, permito-me a ver tudo de forma nublada. este é o meu espaço, é o meu tempo. aqui não tenho de ser forte, não tenho de ser optimista, não tenho de sorrir quando por dentro já me desfiz em mil pedaços.

e recordo-me de Fernando Pessoa.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

e, nisto, regresso a casa. sorriso nos lábios, voz tranquila e olhos secos.

regresso a casa e dá-se novo “click”. agora em modo “super-mulher” [e “super-filha” e “super-irmã” e “super-tia” e “super-madrinha”].

movo mundos e fundos. transporto a dor e as angústias dos outros para outros mundos. faço das tripas coração, e da cabeça um veículo motorizado.

|fecho central|

|das coisas que fazem mais sentido hoje|

o orgulho.

sem dúvida alguma, o orgulho no pai que tenho.

há dias, secava-lhe as lágrimas quando se achava demasiado “lamechas” para ser o “homem da casa”, para ser o líder. achava-se incapaz por fazer da sua bondade a medida para a bondade dos outros. achava-se incapaz por ser capaz de se colocar no papel dos outros e de não ser capaz de prejudicar ninguém. antes prejudicar-se a si do que aos outros.

há uns bons anos atrás – 14 anos, talvez – demos-lhe os bons dias quando ele ainda estava na cama. levantamo-nos bem cedo e rodeamos-lhe a cama para o surpreender. a surpresa fê-lo duvidar se teria sido sempre um bom pai pois nem sempre nos dera aquilo que queríamos.

há uns bons anos atrás, tinha eu uns 17 anos, fechei a porta de casa ao meu pai como reacção ao facto de me terem fechado a porta de casa por ter chegado depois da hora. recebi o maior castigo de sempre: a indiferença do meu pai durante 5 dias consecutivos. nunca nada foi tão penoso, nunca nenhum castigo me doeu tanto e nunca nenhuma outra experiência me ensinou tanto.

há uns anos, levou-me a casa de uma amiga para que fossemos passar uns dias de férias. despediu-se de mim com os olhos marejados. perante o espanto da minha amiga, expliquei-lhe que não se tratava de duvidar ou não da qualidade da condução dela, mas sim do facto de me afastar de casa por quatro dias. de me afastar dele por 4 dias.

ao longo dos anos fomos sempre crescendo com a nítida consciência da efemeridade da vida, com a consciência que somos o aqui e o agora, que nos podemos perder uns dos outros e que nos podemos perder uns aos outros. foi assim quando aos 3 anos de idade vi levarem o meu pai numa maca, tirarem-no de casa a meio da noite e só o devolverem na manhã seguinte. e é assim de cada vez que o vejo com uma “aflição”, de cada vez que o vejo com uma indisposição, de cada vez que olho para as mãos trémulas e percebo que algo não vai bem.

de cada vez que as coisas correm mal, a cada vez que ele duvida da sua capacidade de líder, da sua capacidade para ser um bom pai, eu procuro lembrá-lo que tenho muito orgulho em ser filha dele! que posso sair à rua de cabeça erguida graças à educação que ele me deu. que posso ir na rua e cumprimentar este mundo e o outro pois sou filha do Araújo e neta do Zé de Valongo.

Se algum dia duvidares da tua capacidade de ser pai, podes sempre passar neste meu cantinho e reconheceres nas minhas palavras a tua bondade, a tua coragem, a tua honestidade e a tua resiliência. sem dúvida, posso dizer que sou hoje o espelho daquilo que me ensinaste e tenho tanto, mas tanto orgulho nisso!!!

Obrigado, Pai! Por tudo!

|das coisas que fazem mais sentido hoje|

|excepcionalmente bem disposta|

acordo cedo, bem cedo, de forma a poder afastar o mau humor antes que os outros abram os olhos.

acordo bem cedo para respirar fundo, afastar a preguiça e a birra pelas poucas horas de sono.

é o meu método, é a forma que encontrei de sair de casa de bem com a vida e com o mundo [e com a chuva e com o trânsito].

excepcionalmente, hoje levantei-me bem disposta, sem snooze, sem resinga e sem grunhidos.

levantei cedo, bem cedo, pois já havia luz na sala e na cozinha.

levantei bem cedo e abri a janela da sala para poder sentar e beber o chá tranquilamente, sem olhar para o relógio, sem pensar no dia que vem por aí.

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levantei cedo, bem cedo, e saí de casa à hora de sempre, mas com o bom humor dos dias de sol.

[e valham-me as playlists do spotify)

|excepcionalmente bem disposta|

|it’s a new Day, a new life, for me… And i’m feeling good|

Ter a certeza que o dia de ontem foi o último, que esta noite terá sido a última e que o dia que agora começa será o primeiro de uma nova vida.

Este é um caminho sem volta, com a certeza que nada mais será como antes, com a certeza que, mesmo que tudo corra menos bem, nunca nada será como foi até então.

O dia começa com a certeza de que esta terá sido a melhor escolha, a melhor opção, o melhor caminho.

O dia começa com a certeza absoluta de um novo começo. Um nova lente se impõe, uma nova lente que permitirá ver a vida de uma nova forma, sob uma perspectiva diferente, com um foco diferente e com uma nova correspondência de valores.

Não pretendo esquecer o percurso, não pretendo substituir por outras memórias as memórias dos dias passados. Pretendo manter sempre presente todas as etapas, todos os percalços, todos os pedregulhos que foram surgindo, que me fizeram tropeçar e levantar vezes sem conta. Não pretendo nada disso.

Pretendo recordar o dia de ontem, a noite passada e o dia que agora começa como um ponto de viragem, como um milestone em 33 anos de vida.

Começa agora um novo dia e com ele uma nova forma de ver a vida e de sentir o seu peso, e de calcular a sua importância.

Começa agora um novo dia e eu sinto-me bem.

|it’s a new Day, a new life, for me… And i’m feeling good|