|eu, filha de taxista, me confesso|

como neta e filha de taxista, cresci no tempo do rádio-taxi, no tempo em que os taxis chamavam uns pelos outros através do rádio-taxi.

lá em casa havia até uma antena instalada. e eu divertia-me a ouvir verdadeiras radio-novelas ao sábado e domingo de tarde.

[por vezes, cheguei a pegar na espécie de “walkie-talkie” e tentar meter conversa com que estava do lado de lá]

lembro-me de ouvir a minha mãe chamar pelo meu pai pois tinha clientes a requisitar os seus serviços:

  • “RR”?
  • “escuto”
  • “é para levar à praça x… quanto tempo?”
  • “20 minutos e estou aí”

ou então os amigos do meu pai:

  • “RR?”
  • “Escuto”
  • “É um carro ao café Rocha”
  • “É para esperar?”
  • “é coisa rápida”

cresci a ver o meu pai levar clientes a Espanha, a Fátima, a Lisboa. cresci a ver o meu pai levantar-se de madrugada para levar clientes para as fábricas ou para a bruxa. cresci a ver o meu pai deixar de trabalhar de noite para não deixar sozinhas a mulher e duas filhas. cresci a ver o meu pai sair de casa de madrugada apenas para levar pessoas que conhecia bem [enquanto a minha mãe ficava com o coração nas mãos, pois, segundo ela, nunca fiando].

cresci a ver os clientes confiarem-lhe a chave de casa quando partiam do aeroporto para uns dias de ausência. ainda hoje é comum o carro encher-se de todo o tipo de presentes em épocas festivas. desde doces a garrafas de vinho, passando por pijamas e roupões, e até animais vivos, os clientes do meu pai têm vindo a retribuir o carinho e a atenção com que os trata. [ainda hoje sou “neta” de algumas pessoas que viajam com o meu pai desde há 30 anos].

mas o meu pai não é exemplo. eu sei disso e ele também.

sendo associado da Antral, é um carro de aluguer e não propriamente um taxi. tem lugar na praça mas não pode apanhar serviços em qualquer lado. já pagou não sei quanto nem quantas vezes para poder renovar a licença. já teve de constituir sociedade, dissolver sociedade, pintar o carro de bege, e voltar a pintar de preto e verde, com as devidas alterações de livrete.

o meu pai é do tipo de pessoa que cumpre as regras à risca. se é para instalar um taxímetro xpto, ele vai e instala. se é para fazer x horas de formação, ele vai e faz. se é para renovar o CAP, ele vai e renova. se é para alterar as tarifas, ele vai e altera.

o meu pai é o tipo de taxista para quem o cliente tem sempre razão e que prima pela honestidade e sinceridade.

já ganhou por ser assim [muito boas gorjetas!] e já perdeu por ser assim [foram vários os tipos que sairam do carro para ir buscar/levantar dinheiro e nunca mais voltaram]

sei que paga anualmente um valor elevado quer esteja a faturar, quer tenha o carro na oficina. sei que tem sempre o carro impecável, por dentro e por fora. sei que o ponteiro do gasóleo nunca passa do meio depósito para baixo. não há areias nem migalhas, nem vidros defumados. nunca, em nenhum dos carros que passaram pelas mãos do meu pai, se fumou [o meu carro, ex-taxi, ainda conserva a placa original no tablier com o “Proibido Fumar. Obrigado!”]. sei que conduz com calma e não se mete em grandes aventuras.

talvez por ser filha de um taxista, estive sempre muito atenta ao “comportamento da classe” e é deprimente. eu sei disso e o meu pai também.

em análise do que se passou hoje, só posso dizer que o meu pai – e eu – sente vergonha alheia das imagens que circulam. para um taxista como o meu pai, o problema não está na Uber. Regularizem a atividade e coloquem em pé de igualdade com a atividade do transporte de passageiros e estamos todos bem. o problema vem de dentro. vem dos próprios taxistas que minam a classe, que minam a atividade. são mal educados, são trapaceiros, são arrogantes e são uns estupores que estragam a vida uns aos outros. vêm para a rua protestar contra a Uber, agridem-se uns aos outros e, pelas costas, praticam preços mais baixos para quem lhes interessa. em alguns casos, há até quem continue a exercer a atividade em carros particulares, mesmo depois de extinta a licença e de convertido o carro.

o meu pai não é taxista de grande cidade. trabalha por conta própria com tudo o que isso tem de bom e de mau. não rouba trabalho nem “mete a foice em seara alheia”. hoje não fez greve. acho mesmo que nunca fez greve em 46 anos de trabalho. é um direito dele e não tem de ser agredido ou insultado por isso.

para os poucos – que ainda os há – como o meu pai, o problema não é, nem nunca será a concorrência. o problema está no caráter de quem se senta ao volante, seja ele taxista ou condutor da Uber.

|eu, filha de taxista, me confesso|

|big brother is watching you|

A moda dos vídeos e das fotos de situações embaraçosas tem vindo a fazer-me uma coceira desmedida.

Toda a gente gosta de passear pelo youtube e rir a bandeiras despregadas graças aos videos dos desgraçados que se estatelam contra uma qualquer árvore/poste/parede enquanto tenta fazer qualquer proeza… atira a primeira pedra quem não se desfez a rir com os trambolhões mal dados durante uma proeza de skate, ou uma queda aparatosa num qualquer piquenique de família enquanto se agarra uma corda e se salta para o rio… [mea culpa].

todos nós fizemos disparates. todos nós caímos em situações caricatas, todos nós rimos de alguém que se estatelou no meio da rua, todos sem excepção… mas a grande maioria deve dar graças por na altura não ser ainda comum colocar essas imagens para todo o mundo ver [eu dou graças por não haver facebook ou twitter no meu tempo de criança ou no meu tempo de queima das fitas].

sim, hoje em dia perpetua-se a asneira ao colocá-la nas redes sociais. já nada do que aconteceu no passado fica no lugar onde pertence – ao passado. para o bem e para o mal.

em conversa com uma amiga, em tempos, falávamos sobre a pressão a que todos estamos sujeitos, enquanto almoçávamos. parte da comida que lhe vinha no prato não estava grande coisa e ela decidiu colocar no tabuleiro e levar para trás.

“Já viste se me fotografam ou filmam agora e colocam nas redes sociais?! não tarda nada estou a ser julgada por deitar comida fora, por desperdiçar quando há tanta gente a morrer de fome. não tarda nada, estou a ser julgada em praça pública”.

passaram-se sensivelmente dois meses desde essa nossa conversa até esta notícia:

THE GREAT #PLANEBREAKUP OF 2015

Ao que parece, a “notícia” – ou “não notícia” também já foi divulgada pelos órgãos de comunicação social portugueses… um casal de namorados terminou a sua relação durante um vôo de 9 horas e alguém num dos lugares próximos decidiu transmitir a discussão, acompanhada de imagens, via twitter.

E é a isto que nos encontramos expostos. era isto que Orwell previra. era esta a sociedade do “1984” em que cada indivíduo espia e controla os seus iguais. é esta a “aldeia global”.

e isto é válido para conversas reproduzidas, para fotos e videos tirados/gravados à socapa, para tudo aquilo que nos é expropriado quando vivemos numa sociedade que se refugia no conceito de “rede social”.

a noção de liberdade é um pouco constrangedora quando a maior parte não conhece os seus limites… para mim continua a valer: “a minha liberdade termina onde começa o nariz do outro”…

|big brother is watching you|

|sobre um amor que deveria ser incondicional e irrevogável (à maneira antiga)|

os dias não vão fáceis e as notícias são da maior podridão que pode haver.

desde a passada semana que assistimos a um rol de cenas macabras, de cenários negros e de profunda podridão da sociedade atual, da sociedade à qual eu pertenço e pela qual, também eu me sinto responsável.

não sei o que me surpreende mais… se a maldade dos putos, se o voyeurismo exacerbado dos dias de hoje… não entendo a necessidade de exibir a maldade como um troféu, a necessidade de atuar como “o olho que tudo vê”, a vontade de linchar e julgar em praça pública aquilo que são os podres da sociedade em que vivemos [este aspecto ficará para um outro post].

mas sei que me surpreende – e muito – a total “desordem” dos valores que para mim são básicos e essenciais: o amor maternal ou paternal, o respeito por mim e pelos outros e a liberdade [a qual me ensinaram que termina assim que começa a liberdade do outro].

depois de ler o artigo de Daniel Oliveira – gosto muito de muitas das sua crónicas – não podia estar mais entristecida pela “sacudidela de água do capote” que se assiste por estes dias.

não digo que os pais sejam culpados de tudo, pois, de facto, não o são. mas, em última instância, a condição de pai ou mãe presume um tal sentimento de posse, de responsabilização e de amor pelas suas crias, criando um cenário onde não há margem possível para uma desvinculação perante os atos dos filhos.

“Deus me perdoe o que vou dizer, o meu filho morreu, o que fez vai ter de pagar e sozinho, pois não posso acompanhá-lo nesta etapa. (…) Devia ser entregue para fazerem justiça pelas próprias mãos, é um desgosto muito grande, um pesadelo. A minha vida acabou, preferia mil vezes que ele estivesse no lugar do Filipe. Talvez um dia ele me perdoe por não o ter acompanhado, mas perante a situação não dá mesmo. Os pais não têm de pagar pelos erros dos filhos e vice-versa. (…) Peço perdão, não posso fazer mais nada nesta hora.” Quem escreveu estas linhas, no Facebook, esse confessionário global onde a intimidade é quotidianamente massacrada, foi a mãe de Daniel, o rapaz de 17 anos que terá cometido o homicídio de Salvaterra de Magos.

“Não julgo – como poderia julgar –as responsabilidades da mãe do Daniel pelo crime que ele cometeu. Apenas não posso, sem precisar de mais nada para além do meu instinto paternal, de deixar de me arrepiar com a forma como esta mãe oferece à comunidade, na busca de perdão para si, o seu filho para sacrifício. Só uma relação extraordinariamente deformada pode levar uma mãe a desejar a morte de um filho e a desistir dele nos piores momentos. Para julgar o Daniel estamos cá todos. Os pais amam irremediavelmente as suas belas e horrendas criaturas. E quando não amam estão amputados de forma brutal na sua existência. Podem procurar no filho a responsabilidade do seu desamor. Mas é provável que estejam à procura no lugar errado.

Mas ainda mais arrepiante do que a frase da mãe, que a perturbação, o sofrimento ou o medo podem explicar, é ler os comentários de pessoas que não estão emocionalmente envolvidas no caso e vê-las aplaudir estas frases arrepiantes, como se precisassem que a mãe do homicida se juntasse ao coletivo de juízes. Como se a singularidade do amor maternal e paternal não fosse a de até um homicida o merecer. E ao ver que nem isto é óbvio, percebo mais uma vez que o que vivi não chega para compreender todas as partes negras da vida. Nem a de que haja tanta gente que não sinta que o amor pelos seus filhos é incondicional e irrevogável. Acima do bem e do mal.”

|sobre um amor que deveria ser incondicional e irrevogável (à maneira antiga)|

|se a moda pega|

seremos bem capazes de recuar mais de 40 anos no tempo…

Senão vejamos:

“manter o seu espaço de trabalho arrumado e minimizar a utilização de objectos pessoais”; “utilizar apenas as zonas demarcadas para circulação, mesmo que seja este o percurso mais longo”; “evitar falar num tom de voz elevado com outros trabalhadores no mesmo espaço ou ao telefone fixo ou móvel; e “colocar o telemóvel em modo discreto”.

“Os trabalhadores não podem conceder entrevistas, publicar artigos de opinião, fornecer informações ou publicitar textos de qualquer natureza, que não estejam ao dispor do público em geral, por iniciativa própria ou a pedido dos meios de comunicação social, sem que, para qualquer dos casos, tenham obtido autorização prévia da Direcção Superior”.

impõe que os trabalhadores informem “os respectivos superiores hierárquicos de eventuais suspeitas que tenham  relativamente a comportamentos e situações ilícitas, violadoras do previsto no presente Código e/ou regulamentação interna da DGAJ”.

o primeiro ponto não me choca propriamente. apenas me entristece que seja necessário redigir um documento de onde constem estes princípios básicos, referentes ao trabalho em open space, seja numa instituição pública ou privada. deveria haver uma espécie de bom senso generalizado, pautado essencialmente pelo respeito pelos outros e pelo trabalho.

quanto aos outros pontos, fica assim uma espécie de sabor ácido na boca quando se fala em “dever de informar os respectivos superiores hierárquicos de eventuais suspeitas que tenham  relativamente a comportamentos e situações ilícitas (…)”

sempre me questionei como seria ter vivido no período prévio ao 25 de abril de 74… parece que já estive mais longe de conhecer esta realidade…

e isto somado à proposta de alteração da lei da cobertura mediática dos atos eleitoriais, é caso para nos deixar alerta…

just saying…

|se a moda pega|

|as curvas e a inteligência|

em tempos [muito remotos] gordura era sinal de formosura. era assim no tempo do classicismo e também no período pós 2ª Guerra Mundial.

desde os anos 80 que assistimos a lutas diárias para combater a gordura acumulada, a dita “pele-tipo-casca-de-laranja”, ao culto da magreza e dos 86-60-86.

hoje é ver a quantidade de páginas nas redes sociais que partilham hábitos de vida saudável, dicas de alimentação saudável, exercícios diabólicos para manter uma vida saudável… tudo saudável [quando vivemos paredes meias com fast food, doces e outros alimentos processados a preços bem mais acessíveis que a dita comida saudável].

e tudo isto para quê????

para gerarmos crianças estupidificadas, só pode, a julgar pelo estudo publicado aqui, na Visão.

Mulheres com mais curvas têm filhos mais inteligentes

Os “bancos de gordura” encontrados nas coxas, ancas e nádegas femininas “desempenham um papel fundamental no desenvolvimento do cérebro dos recém-nascidos através da amamentação”, defende um grupo de investigadores

Quem o diz é a Visão, logo quem sou eu para contrariar 😉

|as curvas e a inteligência|

|porque isto também é amor|

sentir um aperto no peito porque ela está lá, no centro dos acontecimentos.

porque ela deixou o conforto de casa, deixou o abraço dos seus, deixou a segurança do seu bairro e partiu para lá.

partiu para o meio da multidão mais silenciosa de sempre, para ouvir, ver e sentir o pesar, a indignação, o medo e a revolta.

por cá ficou um nó e um estado de alerta, uma busca constante por notícias para saber se está bem, para saber como está a lidar com toda a avalanche de emoções que lhe percorrem o corpo, desde a ponta dos pés à ponta dos cabelos.

por cá ficou também a certeza de sermos um ponto de abrigo. ficou a certeza que haverá braços abertos, ombros amigos, sopa e chá quente e uma boa dose de vozes, cheiros e rostos conhecidos à sua espera.

por cá ficou a certeza que estes dias passarão rápido e que todo o tempo do mundo não será suficiente para partilhares o que estás a viver.

mas tempo é o que nós temos de sobra.

“Gente a perder de vista à nossa volta (e por cima de nós, nas varandas dos prédios enormes) e barulho zero. É como se estivesse no maior funeral de sempre. E estou mesmo. Vejo pessoas em grupo: amigos, famílias, pais, avós, netos. Bebés de colo e senhoras de bengala. Ninguém ri à gargalhada, ninguém brinca de forma espalhafatosa. Esta marcha está para começar há horas e pesa, o ambiente pesa. Tudo isto é grave, tudo isto é triste.” Joana Beleza, em Paris.

|porque isto também é amor|

|sobre o dia de ontem, o de hoje e o de amanhã|

jesuischarlieInaceitável é, talvez, das coisas mais “simpáticas” a dizer sobre o que sucedeu ontem.

que não percebam a arte do cartoon, que não tenham sentido de humor, que não consigam ver um palmo à frente do nariz, até se percebe. agora que isso dê o direito de, em nome de uma entidade qualquer, ceifar a vida de outros, não se percebe, não se aceita nem tão pouco se respeita.

inúmeras foram as imagens divulgadas pelos meios de comunicação social retratando a indignação, o apoio e a solidariedade.

mas também foram bastantes as manifestações de estupidez e tacanhez e de aproveitamento pessoal…

do muito que vi por essa internet fora destaco três coisas:

– “Posso não concordar com nenhuma das palavras que tu disseres , mas defenderei até a morte o teu direito a dizê-las. ” Voltaire [publicado por Alberta Marques Fernandes, na sua página do Facebook];

– as capas de hoje do I, do Negócios e do JN;

– as fotos das redações do Observador, da TVI e do Expresso envergando uma impressão a preto com letras brancas “Je Suis Charlie”.

 

|sobre o dia de ontem, o de hoje e o de amanhã|