|na pressa|

hoje saltamos da cama e, à pressa, preparamos tudo para um dia que será bem longo.
em bicos de pés, preparei-me para sair de casa enquanto te espreitava pela porta entreaberta a vigiar o teu sono. estava à espera que acordasses, mas rezava para que demorasse sempre um pouco mais para eu me conseguir despachar.
fizemos as coisas à pressa para que, no meio da pressa, a mãe não perdesse o comboio.
mentalmente, tentava elaborar um discurso, aquele que te diria, entre abraços e beijinhos no pescoço, quando acordasses. tentava explicar-te que hoje a mãe vai estar fora, vai passar o dia fora mas é por um bom motivo. a mãe vai estar a trabalhar, a tentar ultrapassar mais um obstáculo para podermos ter uma vida um pouco “mais simpática”. acredito, seriamente, que se eu te explicar tudo direitinho, tu vais entender e não vais fazer qualquer tipo de julgamento.
hoje, na pressa, apressamos a melhor parte dos nossos dias, aquela que tem sido só minha quase desde que tu nasceste: o teu despertar. um despertar tão lento como saboroso, com risos e sons palrados, com olhares revirados de alegria, com braços elevados acima da cabeça em jeito de preguiça. com mãos pequeninas que me tocam no rosto, que tentam apanhar o meu cabelo por entre os dedos pequeninos.
para além da distância e do tempo de ausência, hoje o dia será difícil pois, na pressa, apressamos a melhor parte.

|na pressa|

|luz de presença|

trocamos o escuro total pelo ponto de luz.

trocamos a porta aberta pela porta encostada.

trocamos os sonos prolongados por momentos temporários de descanso.

trocamos toda a racionalidade pela emoção de cada momento.

já lá vão cinco meses. cinco meses de aprendizagem. cinco meses a viver com o coração do lado de fora do peito (tal como me haviam dito que iria acontecer).

damos por nós a fazer as figuras mais parvas entre os corredores de supermercado só para te sacarmos uma gargalhada das boas. é ver-nos de rabo para o ar, no chão da sala, enquanto te fazemos cócegas na barriga. é ver-nos rebolar – no chão, na cama ou no sofá – para te mostrar como se faz e para te fazer rir, uma vez mais.

fazemos vozes parvas, fazemos ruídos estranhos, rimos com e sem vontade apenas para ver os teus olhos a brilhar.

falamos baixinho, deixamos recados, andamos em bicos de pés para que nada interrompa o teu sono.

deixo-te dormir no meu colo. deixo-te ficar para sentir o teu calor, a tua respiração. acabamos por ficar os três no colo uns dos outros para aproveitarmos o calorzinho bom do teu embalo.

olho-te no berço e só me apetece pegar-te, colar-te a mim e deixar-te dormir.

ontem deixei-te, pela primeira vez, por mais de duas horas. ontem, mesmo sabendo que estavas bem, doeu-me deixar-te. tínhamos as manhãs sempre para nós as duas. ficávamos na ronha das mantas, enroladas no sofá, enquanto tu quisesses. ontem senti o colo vazio pela primeira vez e custou. [hoje ainda custa, e amanhã vai continuar a custar, mas sinto que vai ser bom para ambas].

hoje passam exatamente 5 meses desde que te pegamos no colo, desde que te vimos e te sentimos do lado de fora do corpo. hoje passam 5 meses desde que aprendemos a dormir com um ponto de luz.mafalda

|luz de presença|

| 3 meses|

há 3 meses atrás tudo mudou.

senti algo que nunca sentira antes. as dores e a emoção são incomparáveis, inesquecíveis e difíceis de colocar em palavras.

recordo cada segundo daquele dia, desde a primeira contração ao momento em que te colocaram no meu peito. os meus olhos alcançavam um ser tão pequenino que era, na realidade, maior do que o mundo inteiro. um pequeno ser capaz de encher toda uma vida, uma série de vidas que aguardavam a tua chegada.

a partir daquele momento, tudo mudou. a minha tolerância, a minha paciência, a minha capacidade de amar.

a partir daquele momento, tudo mudou. um ser tão pequeno fez de mim a mais feroz das feras e a mais doce das criaturas.

esta volta de 360º deixou a minha vida de pernas para o ar na mesma medida em que colocou todos os pontos nos is.

[apesar de não ser fã, esta música ficou para sempre na minha memória graças à equipa que te ajudou a nascer e que decidiu colocar música para ajudar a relaxar. Obrigada, Enf.ª Bebiana e Enf.ª Sabrina!]

| 3 meses|

| filha de sua mãe |

Observar a minha mãe com a minha filha no colo faz-me perceber claramente de onde venho.

reconhecer-me no papel de mãe apenas por ouvir a forma como a minha mãe a acalma. Reconhecer nas palavras da minha mãe a minha própria voz, as minhas palavras.

ouvir a minha mãe acalmar a minha filha é ouvir-me a mim… Ou vice-versa.

Os sons, os vocábulos, as palavras inventavas, a linguagem “abebezada”…

o olhar com um misto de ternura e desespero perante um choro indecifrável… Um colo pronto a acolher e uns braços prontos a envolver no mais terno dos afagos.

hoje, naquele que é designado como Dia dos Avós, não podia estar mais certa em como a minha filha tem os melhores avós do mundo.

 

| filha de sua mãe |

|difícil dizer por palavras|

é difícil descrever a primeira vez que te senti.

sentir mesmo.

sentir por fora e não por dentro.

sentir como se te colocasse a mão sobre os ombros e tu te voltasses para ver quem é. sentir como quando uma bolha de sabão nos rebenta na mão.

recordo o momento, recordo a hora e o dia.

recordo a mensagem que enviei ao teu pai e lhe contei que já te conseguiria sentir.

deixaste de ser real apenas no ecrã, no ecógrafo ou na minha barriga.

passaste a ser real para quem aguarda a tua chegada sem ter o mesmo privilégio que eu.

dizem que me ouves desde sempre. eu acredito que sim, mesmo que fale contigo apenas mentalmente, mesmo que tenhamos longas conversas sobre os dias que virão sem nunca ninguém nos ouvir uma palavra.

continua a não ser fácil fazer-me ouvir em voz alta. continua a não ser fácil exteriorizar o que se passa cá dentro. continua a não ser fácil fazer com que nos compreendam. continua a não ser fácil colocar em palavras tudo o que se vai sentindo por estes dias.

não sou fã deste estado mas estou a aprender a respeitar os sinais, os momentos e os dias que passam.

reconheço o privilégio e a responsabilidade. reconheço – e agradeço todos os dias – a fortuna destes momentos.

aprendo a esperar, a respeitar o teu, o meu e o nosso tempo.

não conto o tempo que falta… apenas o que já passou com a certeza de tudo estar a fazer para que o que aí vem seja bom, seja único e seja nosso – por inteiro.

ignoro as muitas histórias e confio na natureza e na medicina, confio nas estatísticas e nos sinais. acima de tudo, confio no amor e no carinho de quem te receberá por inteiro.

e isto é o #melhordomeudia, todos os dias, desde o dia em que te tornaste real.

|difícil dizer por palavras|

|a precisar de uma esplanada|

|ou um sofá|

se há dia que me sinto de rastos é hoje.

ontem foram mais de 600km [com uma pausa para almoço junto da praia]

um dia diferente de trabalho mas que deixou marcas.

hoje, o cansaço é terrível. o sono, as dores no pescoço e a voz ainda fanhosa do vento e do sol.

hoje, sentava numa esplanada e ficava bem quieta. óculos escuros, pernas esticadas e auscultadores [para não ouvir mais nada]

hoje, ignorava os inúmeros conselhos que insistem em dar sem que eu peça, ignorava as recomendações de quem acha que já tudo sabe, ignorava os ritmos de quem já trilhou a sua própria rotina, e deixava-me apenas ficar sentada.

hoje era isto: uma esplanada ou um sofá [desde que ninguém me chateasse]

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by Rob Bye, Bournemouth, England, United Kingdom

|a precisar de uma esplanada|

|em jeito de regresso|

dias cheios, com tanta coisa a acontecer, com uma mente quase a explodir e uma energia frenética que se opõe ao cansaço físico.

por aqui estivemos em pausa e procuramos arrumar as ideias em palavras, em frases com sentido.

por aqui, arrumamos a cabeça para voltar a escrever. arrumamos a cabeça para fazer com que as palavras fluam, uma a uma, sem atropelos nem empurrões.

por aqui há tanta coisa para colocar na ordem. a casa já está. agora falta este espaço aqui.

e isto vai servindo de inspiração…

|em jeito de regresso|

|excepcionalmente bem disposta|

acordo cedo, bem cedo, de forma a poder afastar o mau humor antes que os outros abram os olhos.

acordo bem cedo para respirar fundo, afastar a preguiça e a birra pelas poucas horas de sono.

é o meu método, é a forma que encontrei de sair de casa de bem com a vida e com o mundo [e com a chuva e com o trânsito].

excepcionalmente, hoje levantei-me bem disposta, sem snooze, sem resinga e sem grunhidos.

levantei cedo, bem cedo, pois já havia luz na sala e na cozinha.

levantei bem cedo e abri a janela da sala para poder sentar e beber o chá tranquilamente, sem olhar para o relógio, sem pensar no dia que vem por aí.

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levantei cedo, bem cedo, e saí de casa à hora de sempre, mas com o bom humor dos dias de sol.

[e valham-me as playlists do spotify)

|excepcionalmente bem disposta|

|it’s a new Day, a new life, for me… And i’m feeling good|

Ter a certeza que o dia de ontem foi o último, que esta noite terá sido a última e que o dia que agora começa será o primeiro de uma nova vida.

Este é um caminho sem volta, com a certeza que nada mais será como antes, com a certeza que, mesmo que tudo corra menos bem, nunca nada será como foi até então.

O dia começa com a certeza de que esta terá sido a melhor escolha, a melhor opção, o melhor caminho.

O dia começa com a certeza absoluta de um novo começo. Um nova lente se impõe, uma nova lente que permitirá ver a vida de uma nova forma, sob uma perspectiva diferente, com um foco diferente e com uma nova correspondência de valores.

Não pretendo esquecer o percurso, não pretendo substituir por outras memórias as memórias dos dias passados. Pretendo manter sempre presente todas as etapas, todos os percalços, todos os pedregulhos que foram surgindo, que me fizeram tropeçar e levantar vezes sem conta. Não pretendo nada disso.

Pretendo recordar o dia de ontem, a noite passada e o dia que agora começa como um ponto de viragem, como um milestone em 33 anos de vida.

Começa agora um novo dia e com ele uma nova forma de ver a vida e de sentir o seu peso, e de calcular a sua importância.

Começa agora um novo dia e eu sinto-me bem.

|it’s a new Day, a new life, for me… And i’m feeling good|

|eu e o spotify, o spotify e eu|

 

por vezes sinto saudades de quando trabalhava com o Pedro.

podíamos até nem partilhar a mesma opinião, o meu gosto, mas tínhamos música todo o dia. com o som mais alto ou nem por isso, o nosso gabinete era o local preferido de muita gente… chegando até a confundir-se com um consultório.

era remédio santo para a má disposição do boss, que nos “tolerava” a escolha musical pois estava no gabinete dos “criativos”.

ouvíamos fado, pop, rock, funk, reggae. ouvíamos música portuguesa, francesa e italiana.

ouvíamos de tudo um pouco. e à 6ª feira conseguia ser ainda pior… talvez uma manifestação do desejo de liberdade que o fim de semana trazia, fazia com que lhe parasse qualquer coisinha no cérebro e colocasse house em altos berros… em 6ªs feiras menos simpáticas – e, ali, as sextas conseguiam ser mesmo muito más – chegamos mesmo a ouvir música popular portuguesa, sendo muito vasto o reportório que conseguíamos trazer para aquele pequeno espaço.

hoje lembrei-me do Pedro, do Ricardo e da Patrícia, da equipa que formamos. lembrei-me das parvoíces, das discussões e das decisões. não desejei que o tempo voltasse atrás. não quis voltar àquele escritório nem quis voltar a ter a minha equipa [ficamos amigos e isso basta]. mas senti falta da música. aliás, tenho sentido falta da música e da muita coisa boa e má que se ouvia por ali.

assim, eu e o Spotify temo-nos vindo a tornar nos melhores amigos. sem dúvida a minha companhia nos tempos que correm.

e fiquei fã das playlists, das coisas que podemos colocar em play e ficar ouvir horas e horas, sem ter que mexer uma palha. descobrem-se novas vozes, novas músicas, novos nomes…

e estas irão fazer-me companhia hoje e pelo fim de semana fora 🙂

Smooth Morning

Cool, Calm, & Collected

Ready for the Day

Seize the Day!

|eu e o spotify, o spotify e eu|