|da série “coisas que nunca vou entender” #1|

nunca vou perceber porque é que a pessoa está parada na paragem de autocarro – ou noutro sítio qualquer da via pública – descalça um chanato e desata a esfregar o pé na perna…
junte-se o facto de não perceber porque é que os homens usam chinelos “de piscina” em plena baixa da cidade… nem sequer estão com jeito de quem veio/vai do/para o rio/praia…

Anúncios
|da série “coisas que nunca vou entender” #1|

|faz-me espécie|

chega mesmo a irritar-me alguns comportamentos à mesa.

desde a forma como se segura o garfo [nada de punhos cerrados em torno do garfo com o polegar a vir por cima], à velocidade com que se leva a comida à boca, à quantidade de comida que se leva à boca, aos barulhos que se fazem e até mesmo à forma como se arrumam os alimentos no prato.

não sei se terei algum tipo de comportamento obsessivo-compulsivo mas são coisas que me irritam e às quais dificilmente fico indiferente.

é isso e estragar comida. pedir uma torrada para pequeno-almoço e deixar ficar a côdea e uma boa parte do miolo agarrado. olhava-se para aquele prato e era bem pior que o mar dos sargaços. mais de metade da torrada estava ali, esfrangalhada.

pergunto-me eu: se não gostam de côdea, porque não pedir uma torrada aparada? ou um pão? ou outra coisa qualquer que não tenha aquelas extremidades?

a questão de “tanta gente a passar fome e “aquilo” ali vai direto para o lixo” também me ocorre… mas a irritação com o estado em que fica o prato, a mesa e os guardanapos causa-me uma espécie de urticária.

 

|faz-me espécie|

|i’ve got everything|

a semana vai longa e os dias demasiado intensos. ando submersa numa série de ideias que me fazem debitar trabalho mesmo enquanto caminhamos, quando estamos em casa e enquanto jantamos.

reservo-me o pequeno-almoço para não falar, para fazer de conta que ouço as notícias enquanto tento não pensar.

sei que estás ali, bem ao lado, sem dizeres nada e fazendo de conta que não reparas que a minha cabeça não está ali, e nem sequer perto disso.

por norma não reparo em nada.

sei que as janelas estão abertas, porque tu já as abriste e o dia já nasceu.

mas hoje reparei na forma como me olhavas. horas depois ainda sinto os teus olhos cravados na minha pele. e essa foi, sem dúvida, a melhor forma de começar o dia.

“I’ve got you”

|i’ve got everything|

|um café [expresso/bica]|

chegar sob um calor de ananases.

Temer pela própria integridade física dada a destreza do senhor taxista, mas deliciar-me com a história da sua vida e da vida da sua família e que podia dar direito a novela.

Sabe, diz-me ele, as novelas são a cópia do que acontece na vida real. E diga lá se não é bonito ver um casal que se enamora na adolescência, segue cada um para seu lado, encontram-se muitos anos mais tarde e descobrem que ainda gostam muito um do outro. Sabe, diz ele enquanto olha pelo retrovisor, a vida vale a pena é por isto, pelo inesperado, pelas surpresas… 

E para minha surpresa, trouxeram-me uma série de mimos junto com o meu café expresso.

  

|um café [expresso/bica]|

|embrutecer|

em·bru·te·cer |ê|
(em- + bruto + -ecer)

verbo transitivo e pronominal

Tornar ou ficar bruto, estúpido ou brutal. = EMBRUTAR

[de acordo com o priberam]
o tempo passa e é isto o que eu sinto. sinto-me tomada pelo meu lado mais bruto, mais frio, mais distante, mais sarcástico.
não que tenha perdido a capacidade de me deslumbrar, de me enternecer, de abraçar e de me deixar abraçar, mas reservo este momentos apenas para com aqueles que me são mesmo muito especiais, para aqueles que me conhecem até às entranhas e que percebem um esgar de dor mesmo atrás do meu melhor sorriso.
há dias, num jantar com amigos com quem já não estava há realmente muito tempo, percebi que o meu sentido de humor mudou nos últimos tempos. percebi que a minha paciência para determinados temas está longe de ser a mesma e percebi que facilmente relativizo as situações que me são mais incómodas.
enquanto segurava o copo de vinho entre os dedos dei por mim a pensar em tudo o que havia acontecido desde a última vez que estivemos juntos…
oh, pá!| tanta coisa aconteceu pelo meio! tanta coisa boa, tanta coisa má, tanta pedra e tão pouco sol…
impossível não embrutecer, impossível não colocar uma casca dura a servir de proteção…impossível não relativizar.
oh, pá! estou mesmo a ficar um bloco de gelo!
não, nada disso… estás mais vivida e o sarcasmo é apenas um refinamento do teu sentido de humor – ouviu-se do outro lado da mesa.
dias depois, essas palavras ainda fazem eco na minha cabeça, ainda deambulam de cá para lá, ainda me assolam quando pego nos meus sobrinhos ou quando abraço o meu afilhado já tão crescido… ainda fazem mossa quando me encolho e me encosto para dormir e me agradeces ao ouvido por tudo o que temos vivido juntos. e eu agradeço baixinho por estarmos juntos.
|embrutecer|

|chamam-lhe “democratização”|

há até quem lhe chame “progresso”, “evolução”.

o certo é que, hoje em dia, todos nós comunicamos. todos temos algo a dizer e podemos fazê-lo para uma vasta audiência [e aqui, contra mim falo, pois dedico-me a escrever neste espaço coisas que não interessam nem ao menino Jesus]. e muitos de nós escudam-se no monitor e no teclado e tecem longos e aprofundados comentários por essas redes sociais fora, nos fóruns dos órgãos de comunicação, etc. dissertam sobre a vida dos outros, opinam sobre os “casos do dia”, prestam [ainda] aconselhamento aos mais diversos níveis. de forma gratuita. sabem de cor o que os outros pensam ou dizem pensar, e que aquilo que dizem não é o mesmo que aquilo que pensam. e comentam-no. nas redes sociais ou nos fóruns. por vezes, comentam a vida privada dos mesmos, dos visados nos artigos de opinião ou noticiosos.

nada contra.

a não ser o assassínio da língua portuguesa [mesmo que digam que a culpa é do Novo Acordo Ortográfico].

é vê-los a confundir os “ás” com os “às”, os “às” com os “hás”, o “-se” com o “sse”… são tantos, mas tantos os exemplos que por aí andam!!! mesmo em órgãos de comunicação social de referência, mesmo em comentários de pessoas aparentemente eruditas e que até dominam o tema, mesmo em artigos de pessoas chamadas de “líderes de opinião”.

a título de exemplo:

“foje-lhe a boca para a verdade”

“estives-te muito bem”

“sem doze nenhuma de realismo”

“self-made mans”

“ainda à muita coisa mal explicada”

“quéro ver”

“à indicios que”

não sou o suprassumo da língua portuguesa, não digo que não erre [e escrevo essencialmente com minúsculas no início das frases porque me apetece, apenas e só, digam lá o que disserem]. tenho dúvidas muitas vezes, e faço do Priberam o meu melhor amigo, e uso e abuso do Google Translator, e escrevo e reescrevo vezes sem conta para ver se me parece bem [ok, às vezes, escrevo de rajada. só porque me apetece]. tento ter cuidado com a forma pois pode adulterar todo o conteúdo, e toda a minha intenção.

já não me chegam os facebooks desta vida, onde temos que fazer um esforço sobrehumano para perceber o que lá está escrito. É o “assério”, o “ama mos”, o “amote”; é a falta de acentos [e não de assentos], a falta de pontuação, a falta de lógica. são, muitas vezes, as frases longas, sem pontos nem vírgulas, e que perdem todo o sentido ao fim de quatro linhas.

é o nosso idioma, caramba! no mínimo, devemos saber o que estamos a escrever e como estamos a escrever!

o problema não são as letras pequeninas de muitos contratos. muitas vezes, o problema está no facto de se desconhecer a língua portuguesa.

parece-me crítico, no mínimo.

[ou isto é apenas Monday Mood]

|chamam-lhe “democratização”|