|a passo e passo|

aos poucos voltar ao que era.
voltar a ter tempo para ler, para escrever, para pensar.
aproveitar os tempos mais calmos, em que o escritório parece quase vazio, e organizar as ideias.
preparar listas com almoços e jantares, listas de compras, listas de coisas a fazer.
esta nova realidade – papel de mãe + novo emprego – desorientaram-me completamente fazendo com que as dificuldades em manter o foco sejam enormes.
aos poucos consegui voltar a encontrar tempo para ler [sem adormecer entre uma página e outra]. consegui acabar o livro que começara há meses e ter já um novo a meio.
aos poucos, consegui voltar aqui. para ler o que por cá se passa e para descomprimir entre teclas.
aos poucos, a passo e passo, vou conseguindo pensar numa outra dimensão que não apenas aquela que me ocupa a grande maioria do tempo.

|a passo e passo|

|na pressa|

hoje saltamos da cama e, à pressa, preparamos tudo para um dia que será bem longo.
em bicos de pés, preparei-me para sair de casa enquanto te espreitava pela porta entreaberta a vigiar o teu sono. estava à espera que acordasses, mas rezava para que demorasse sempre um pouco mais para eu me conseguir despachar.
fizemos as coisas à pressa para que, no meio da pressa, a mãe não perdesse o comboio.
mentalmente, tentava elaborar um discurso, aquele que te diria, entre abraços e beijinhos no pescoço, quando acordasses. tentava explicar-te que hoje a mãe vai estar fora, vai passar o dia fora mas é por um bom motivo. a mãe vai estar a trabalhar, a tentar ultrapassar mais um obstáculo para podermos ter uma vida um pouco “mais simpática”. acredito, seriamente, que se eu te explicar tudo direitinho, tu vais entender e não vais fazer qualquer tipo de julgamento.
hoje, na pressa, apressamos a melhor parte dos nossos dias, aquela que tem sido só minha quase desde que tu nasceste: o teu despertar. um despertar tão lento como saboroso, com risos e sons palrados, com olhares revirados de alegria, com braços elevados acima da cabeça em jeito de preguiça. com mãos pequeninas que me tocam no rosto, que tentam apanhar o meu cabelo por entre os dedos pequeninos.
para além da distância e do tempo de ausência, hoje o dia será difícil pois, na pressa, apressamos a melhor parte.

|na pressa|

|concentração precisa-se|

o volume de trabalho intensificou e não deixa grande margem de manobra.

é tempo de seguir cronogramas, traçar planos, cumprir calendários, gerir tarefas e concretizar projetos.

o tempo não ajuda, desmotiva e baralha a ideia de que a Primavera chegou.

todas as ferramentas são úteis, todas as ajudas contam, todos os minutos são preciosos.

mas nada como a música para ajudar a manter o foco.

e hoje isto está em loop por estes lados.

[em modo de preparação para um fim de semana que se quer de descanso e de tempo para cuidar de mim e dos meus]

|concentração precisa-se|

|mas está tudo louco?!|

quem olha para as notícias do que por cá se passa desde há uns dias, deve bem achar que sim.

a outra diz que, se tivesse de colocar umas coisas numa mochila e partir, levava apenas um iPhone e jóias… [aqui]

o outro disse que dava umas bofetadas nuns cronistas da imprensa diária e agora demite-se porque não abdica do direito à “liberdade de expressão” [aqui e aqui]

há ainda um outro que apresenta demissão porque o subdiretor do Colégio Militar reconhece que os alunos homossexuais são “convidados” a deixar a instituição [aqui]

no meio disto ainda temos o Draghi, na reunião do Conselho de Estado, a elogiar o anterior governo e a assumir que as reformas realizadas devem ser mantidas… basicamente, ele continua a aguardar [e a desejar] um Plano B do atual governo [aqui]

e tudo isto se parece muito com um fait-divers, não fosse o caso de ainda se aguardar o surgimento do nome de portugueses no caso “Panama Pappers” [aqui]

ainda bem que o fim de semana está à porta… caso contrário, ninguém teria tempo para seguir tantas “novelas” ao mesmo tempo.

|mas está tudo louco?!|

|a precisar de uma esplanada|

|ou um sofá|

se há dia que me sinto de rastos é hoje.

ontem foram mais de 600km [com uma pausa para almoço junto da praia]

um dia diferente de trabalho mas que deixou marcas.

hoje, o cansaço é terrível. o sono, as dores no pescoço e a voz ainda fanhosa do vento e do sol.

hoje, sentava numa esplanada e ficava bem quieta. óculos escuros, pernas esticadas e auscultadores [para não ouvir mais nada]

hoje, ignorava os inúmeros conselhos que insistem em dar sem que eu peça, ignorava as recomendações de quem acha que já tudo sabe, ignorava os ritmos de quem já trilhou a sua própria rotina, e deixava-me apenas ficar sentada.

hoje era isto: uma esplanada ou um sofá [desde que ninguém me chateasse]

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by Rob Bye, Bournemouth, England, United Kingdom

|a precisar de uma esplanada|

|sonhar acordada|

morningeggs: “ Ok, good. ”

Fonte: morningeggs: Ok, good.

mais ou menos em jeito de bom dia.

podia ser assim, podia… mas acho que vamos ficar pelo queijo, pela fruta (sem ser figos) e pelo leite…

desde há uns meses que os pequenos-almoços mudaram, que as rotinas mudaram, que a agitação aqui em casa passou a ser outra.

agora é preparar lanches e almoços para dois, preparar pequenos-almoços para dois. para dois que têm hábitos muito distintos.

eu gosto de tomar pequeno-almoço na sala, enquanto vejo as notícias. já ele, gosta de tomar pequeno-almoço na cozinha, em silêncio.

eu gosto de tomar o pequeno-almoço com calma, antes do banho e ainda de pijama. ele gosta de tomar o pequeno-almoço já prontidão a sair.

estamos ainda  a ajustar-nos mas eu estava seriamente habituada ao silêncio e à calma das minhas manhãs…

|sonhar acordada|

|gerir a mudança|

como em tudo na vida, a grande dificuldade não está na mudança, está na gestão.

na gestão dos tempos, dos passos, das etapas, dos meios, das pessoas e, mais difícil ainda, das expectativas.

estou a aprender a mudar e a gerir essa mudança. a aprender a transformar ansiedade em entusiasmo, a aprender a viver o momento, o aqui e o agora. a apreender a equacionar cenários sem viver presa entre as paredes desses mesmos cenários. mesmo que isto pareça um contra-senso com o aqui e o agora.

estou a tentar concentrar-me na parte positiva, na parte em que é possível tornar os sonhos reais, mesmo que estes se desfaçam com um estalar de dedos.

aprender a ver as coisas pelo lado positivo, pois nem tudo pode ser mau.

prefiro acreditar que o pão do pobre não cai sempre com o lado da manteiga para baixo.

e que algum dia as coisas vão mudar.

com isto acho que me posso despedir de 2015 e que venha de lá esse 2016. é que este ano já deu o que tinha a dar.

|gerir a mudança|

|imagens gravadas a ferro e fogo|

às vezes desejava que que os meus olhos fossem capazes de fotografar exatamente aquilo que a minha mente está a ver, sem tirar nem pôr. não para poder meramente partilhar, mas para guardar para sempre, para recordar com atos e imagens aquilo que as palavras não chegam para demosntrar. para gravar na mente, a ferro e fogo, e impedir que algum dia a memória me atraiçoe.

e ontem, tal como há oito anos, abriu-se na minha memória uma nova caixa para guardar para sempre a principal razão que me faz acreditar no amor, nas relações, na amizade e na cumplicidade.

ontem – como há oito anos, mas em papéis invertidos – ela acariciou-lhe os braços, rodeou o rosto dele com as suas mãos e falou-lhe com a voz mais carinhosa que alguma vez lhe ouvi: “então? vamos levantar! vamos animar e erguer a cabeça! estou aqui, do teu lado, hoje e sempre, e quero ver-te bem outra vez. quero ver-te sorrir e sorrir contigo. as tuas filhas estão a contar contigo e eu também”. ele apenas abriu os olhos e deixou escapar por entre os lábios:”eu vou ficar bem. por ti e por elas”.

da soleira da porta eu olhava-os em silêncio e recordava o abraço que os envolvera há 8 anos. nessa altura, junto à porta do quarto deles, eu decidi que queria para mim uma história de amor como aquela. um amor à séria, daqueles que nos mostram com quem podemos contar nos bons e maus momentos. daqueles que concretizam as palavras que nos habituamos a ouvir no cinema – na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias da minha vida. e decidi que queria viver 30 anos com a mesma pessoa e sentir algo assim, viver algo tão genuíno como o quadro que se desenhava à minha frente.

ontem, tal como há oito anos, da soleira da porta, eu olhava-os em silêncio e reaprendia o verdadeiro sentido da vida.

|imagens gravadas a ferro e fogo|

|eu, filha de taxista, me confesso|

como neta e filha de taxista, cresci no tempo do rádio-taxi, no tempo em que os taxis chamavam uns pelos outros através do rádio-taxi.

lá em casa havia até uma antena instalada. e eu divertia-me a ouvir verdadeiras radio-novelas ao sábado e domingo de tarde.

[por vezes, cheguei a pegar na espécie de “walkie-talkie” e tentar meter conversa com que estava do lado de lá]

lembro-me de ouvir a minha mãe chamar pelo meu pai pois tinha clientes a requisitar os seus serviços:

  • “RR”?
  • “escuto”
  • “é para levar à praça x… quanto tempo?”
  • “20 minutos e estou aí”

ou então os amigos do meu pai:

  • “RR?”
  • “Escuto”
  • “É um carro ao café Rocha”
  • “É para esperar?”
  • “é coisa rápida”

cresci a ver o meu pai levar clientes a Espanha, a Fátima, a Lisboa. cresci a ver o meu pai levantar-se de madrugada para levar clientes para as fábricas ou para a bruxa. cresci a ver o meu pai deixar de trabalhar de noite para não deixar sozinhas a mulher e duas filhas. cresci a ver o meu pai sair de casa de madrugada apenas para levar pessoas que conhecia bem [enquanto a minha mãe ficava com o coração nas mãos, pois, segundo ela, nunca fiando].

cresci a ver os clientes confiarem-lhe a chave de casa quando partiam do aeroporto para uns dias de ausência. ainda hoje é comum o carro encher-se de todo o tipo de presentes em épocas festivas. desde doces a garrafas de vinho, passando por pijamas e roupões, e até animais vivos, os clientes do meu pai têm vindo a retribuir o carinho e a atenção com que os trata. [ainda hoje sou “neta” de algumas pessoas que viajam com o meu pai desde há 30 anos].

mas o meu pai não é exemplo. eu sei disso e ele também.

sendo associado da Antral, é um carro de aluguer e não propriamente um taxi. tem lugar na praça mas não pode apanhar serviços em qualquer lado. já pagou não sei quanto nem quantas vezes para poder renovar a licença. já teve de constituir sociedade, dissolver sociedade, pintar o carro de bege, e voltar a pintar de preto e verde, com as devidas alterações de livrete.

o meu pai é do tipo de pessoa que cumpre as regras à risca. se é para instalar um taxímetro xpto, ele vai e instala. se é para fazer x horas de formação, ele vai e faz. se é para renovar o CAP, ele vai e renova. se é para alterar as tarifas, ele vai e altera.

o meu pai é o tipo de taxista para quem o cliente tem sempre razão e que prima pela honestidade e sinceridade.

já ganhou por ser assim [muito boas gorjetas!] e já perdeu por ser assim [foram vários os tipos que sairam do carro para ir buscar/levantar dinheiro e nunca mais voltaram]

sei que paga anualmente um valor elevado quer esteja a faturar, quer tenha o carro na oficina. sei que tem sempre o carro impecável, por dentro e por fora. sei que o ponteiro do gasóleo nunca passa do meio depósito para baixo. não há areias nem migalhas, nem vidros defumados. nunca, em nenhum dos carros que passaram pelas mãos do meu pai, se fumou [o meu carro, ex-taxi, ainda conserva a placa original no tablier com o “Proibido Fumar. Obrigado!”]. sei que conduz com calma e não se mete em grandes aventuras.

talvez por ser filha de um taxista, estive sempre muito atenta ao “comportamento da classe” e é deprimente. eu sei disso e o meu pai também.

em análise do que se passou hoje, só posso dizer que o meu pai – e eu – sente vergonha alheia das imagens que circulam. para um taxista como o meu pai, o problema não está na Uber. Regularizem a atividade e coloquem em pé de igualdade com a atividade do transporte de passageiros e estamos todos bem. o problema vem de dentro. vem dos próprios taxistas que minam a classe, que minam a atividade. são mal educados, são trapaceiros, são arrogantes e são uns estupores que estragam a vida uns aos outros. vêm para a rua protestar contra a Uber, agridem-se uns aos outros e, pelas costas, praticam preços mais baixos para quem lhes interessa. em alguns casos, há até quem continue a exercer a atividade em carros particulares, mesmo depois de extinta a licença e de convertido o carro.

o meu pai não é taxista de grande cidade. trabalha por conta própria com tudo o que isso tem de bom e de mau. não rouba trabalho nem “mete a foice em seara alheia”. hoje não fez greve. acho mesmo que nunca fez greve em 46 anos de trabalho. é um direito dele e não tem de ser agredido ou insultado por isso.

para os poucos – que ainda os há – como o meu pai, o problema não é, nem nunca será a concorrência. o problema está no caráter de quem se senta ao volante, seja ele taxista ou condutor da Uber.

|eu, filha de taxista, me confesso|