|a precisar de uma esplanada|

|ou um sofá|

se há dia que me sinto de rastos é hoje.

ontem foram mais de 600km [com uma pausa para almoço junto da praia]

um dia diferente de trabalho mas que deixou marcas.

hoje, o cansaço é terrível. o sono, as dores no pescoço e a voz ainda fanhosa do vento e do sol.

hoje, sentava numa esplanada e ficava bem quieta. óculos escuros, pernas esticadas e auscultadores [para não ouvir mais nada]

hoje, ignorava os inúmeros conselhos que insistem em dar sem que eu peça, ignorava as recomendações de quem acha que já tudo sabe, ignorava os ritmos de quem já trilhou a sua própria rotina, e deixava-me apenas ficar sentada.

hoje era isto: uma esplanada ou um sofá [desde que ninguém me chateasse]

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by Rob Bye, Bournemouth, England, United Kingdom

|a precisar de uma esplanada|

|sonhar acordada|

morningeggs: “ Ok, good. ”

Fonte: morningeggs: Ok, good.

mais ou menos em jeito de bom dia.

podia ser assim, podia… mas acho que vamos ficar pelo queijo, pela fruta (sem ser figos) e pelo leite…

desde há uns meses que os pequenos-almoços mudaram, que as rotinas mudaram, que a agitação aqui em casa passou a ser outra.

agora é preparar lanches e almoços para dois, preparar pequenos-almoços para dois. para dois que têm hábitos muito distintos.

eu gosto de tomar pequeno-almoço na sala, enquanto vejo as notícias. já ele, gosta de tomar pequeno-almoço na cozinha, em silêncio.

eu gosto de tomar o pequeno-almoço com calma, antes do banho e ainda de pijama. ele gosta de tomar o pequeno-almoço já prontidão a sair.

estamos ainda  a ajustar-nos mas eu estava seriamente habituada ao silêncio e à calma das minhas manhãs…

|sonhar acordada|

|i’ve got everything|

a semana vai longa e os dias demasiado intensos. ando submersa numa série de ideias que me fazem debitar trabalho mesmo enquanto caminhamos, quando estamos em casa e enquanto jantamos.

reservo-me o pequeno-almoço para não falar, para fazer de conta que ouço as notícias enquanto tento não pensar.

sei que estás ali, bem ao lado, sem dizeres nada e fazendo de conta que não reparas que a minha cabeça não está ali, e nem sequer perto disso.

por norma não reparo em nada.

sei que as janelas estão abertas, porque tu já as abriste e o dia já nasceu.

mas hoje reparei na forma como me olhavas. horas depois ainda sinto os teus olhos cravados na minha pele. e essa foi, sem dúvida, a melhor forma de começar o dia.

“I’ve got you”

|i’ve got everything|

|complexo de édipo|

é e será sempre o homem da minha vida, um amor daqueles que não se escolhem. daqueles amores que sabemos que estão sempre lá.

admiro-lhe o carácter, as feições e os gestos.

admiro-lhe a amabilidade, habilidade e paciência.

admiro-lhe a ternura e a honestidade.

admiro o facto de não ter medo de chorar, de se emocionar e de mostrar o que sente. [recordo-me da primeira vez que o vi chorar. “os homens também devem chorar. homens a sério sabem chorar”. tinha eu seis anos e velávamos o corpo do meu avô].

admiro o facto de, não sendo deste tempo, ser mais dos dias de hoje do que os homens de hoje.

dele herdei o tom de pele e a ansiedade. uma ansiedade que não se vê mas que está sempre lá e nos tira o sono. herdei o sistema nervoso, o medo disfarçado de coragem para aqueles que não nos conhecem. herdei também um ventrículo esquerdo disforme. gostava de herdar a bondade e a paciência, mas apenas ouvi [e ponho em prática] os gestos que me ensinou.

para as minhas amigas ele virou “o padrinho”. e, orgulhoso, recebe-as sempre de braços abertos e olhos marejados. faz questão de as acolher como se fossem suas. faz questão de mostrar o orgulho que tem nas filhas e em quem elas escolhem para as acompanhar.

tem ciúmes até da mãe. ciúmes da atenção que lhe damos, do facto de a chamarmos sempre ao telefone, de perguntarmos por ela sempre que entramos em casa. fica triste quando não cumprimentamos à chegada e mais triste ainda se não cumprimentarmos à saída.

treme de cada vez que vamos de viagem [sejam 100km ou 10 000km]. emociona-se de cada vez que alguém nos elogia. é incapaz de tirar uma foto às filhas sem que esta fique tremida ou desfocada.

questionei-o tantas vezes, testei todos os limites. os da paciência e os do amor. e tanto ele como a minha mãe me mostraram que o amor de pai e mãe não tem limites.

hoje o meu pai completa 64 anos. sei que nunca aqui chegará, que dificilmente terá qualquer contacto com este texto. sei que agora ainda deverá estar emocionado pela mensagem que lhe enviei. sei que logo o vou abraçar e dizer que o adoro. sei que vou roubar um pouco do colo para voltar a ser a menina do papá. apenas por uns instantes. para que nunca deixe de acreditar que é homem mais importante da minha vida. e para que nunca duvide que merece todo o meu carinho.

|complexo de édipo|

|aprender a gostar|

o tempo tem destas coisas. ensina-nos a gostar.

aprendemos a apreciar novos paladares, novos odores, novos sons.

o passar do tempo pode até, talvez, criar mais barreiras, mais pré-conceitos, mais pré-juízos. pode até restringir a capacidade de de nos deixarmos levar, de nos deixarmos seduzir e ludibriar pelos sentidos.

mas o passar do tempo também nos traz algum discernimento, uma certa tranquilidade e serenidade que nos permite apreciar novos [e antigos] sabores, odores e formas. a idade educa os sentidos. e com o passar dos anos aprendi a gostar da língua francesa.

no cinema, na literatura e na música.

Paris não é a minha cidade-fetiche; não delirei com Paris, mas deliro sempre com a vontade de lá voltar e de conhecer um pouco mais de um país que nunca me fascinou mas que agora me deixa curiosa.

|aprender a gostar|

|sol de inverno|

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sair em trabalho e ficar com vontade de por lá ficar.

aproveitar que não chove e andar pela rua, de cabeça e coração bem agasalhados.

aproveitar a luz e as boas energias e fingir que pode ser assim todos os dias, com ligeiras alterações nos termómetros.

fingir que o parquímetro não está a contar, fazer de conta que não há horas para voltar.

inspirar e expirar. fingir e aproveitar.

|sol de inverno|

|just to say hi|

A época clama por uma presença efetiva, por uma proximidade física, por um contacto real.

Por aqui ainda nos estamos a organizar de forma a poder dar o melhor presente de todos – uma atenção total e totalmente despretensiosa.

ainda luto com os horários, com a gestão do tempo.

ainda luto para me organizar e daí poder dar o melhor de mim.

[não que tenha muito que fazer, mas porque tenho de gerir o cansaço e a vontade de não fazer nada]

enquanto isso, tento manter-me na melhor companhia…

 

|just to say hi|