|sobre isto do Dia Internacional da Mulher|

não o comemoro de forma particular, não assinalo o dia com uma comemoração especial, nem exijo tratamento especial.

exijo o que exijo todos os dias: respeito, carinho e compreensão. por esta mesma ordem e está de boa medida.

mas isto porque cresci com a certeza que as mulheres jamais serão iguais aos homens e com a certeza que não quero que assim seja. cresci com a certeza que o respeito pela condição humana é igual independentemente do género, da raça ou da crença.

lá em casa nunca houve grande distinção entre tarefas “de mulher” e tarefas de “homem”. cada um faz o que lhe compete numa casa dominada por mulheres. o meu pai estava em minoria e nem por isso foi um privilegiado. ainda hoje é o dia em que, estando todos à mesa, ele se levanta para começar a arrumar; ainda hoje é o dia em que ele se levanta mais cedo para limpar o fogão a lenha e o acender para que a cozinha esteja sempre mais confortável.

numa casa onde todos somos iguais, havia apenas duas diferenças.

1ª – para o meu pai, as meninas não devem jogar futebol pois ficam com as pernas arqueadas

2ª –  cá em casa pai e mãe mandam em igual medida.

crescer numa família dominada por mulheres, algumas das quais viúvas, ajuda a perceber que a força física não é exclusiva do género masculino, que a dureza das palavras e a ausência de lágrimas também não. crescer rodeada de mulheres que vivem em pé de igualdade com os homens que escolheram ter do seu lado fez-me crescer com a certeza que a liberdade e o direito de escolha fazem parte da condição humana e não do género.

cá em casa, os homens também choram, também se emocionam com o “Ponto de Encontro” ou com as novelas; cá em casa os homens também se emocionam nas reuniões familiares e quando enaltecem o crescimento dos filhos.

cá em casa as mulheres são mais fortes, mais resistentes e mais persistentes; cá em casa são, essencialmente, as mulheres que dão o corpo às balas e desafiam as instituições.

cá em casa os homens raramente cozinham porque dificilmente têm a oportunidade de o fazer; mas arrumam, lavam, limpam e mudam fraldas como qualquer outra pessoa.

cá em casa, tão depressa deixava um recém-nascido com a minha mãe como com o meu pai e saía descansada. cá em casa, a única diferença entre homens e mulheres é que estas engravidam e têm a benesse de dar à luz e aqueles não. mas têm exatamente a mesma obrigação e a mesma responsabilidade na educação e criação dos filhos.

cá em casa é assim. mas em muitas outras casas isso não acontece. daí a necessidade de celebrarmos e reivindicarmos a existência de um dia em defesa da igualdade de direitos, de oportunidades e de tratamento.

por isso destaco apenas um texto que li a propósito deste dia e uma resposta inteligente a uma pergunta traiçoeira:

E é para mim e para todas as mulheres que, fora do meu etnocentrismo, continuam a precisar de um dia que as lembre da luta pela igualdade. É para mim e para Jyoti Singhque, a rapariga de 23 anos que, na Índia, foi violada por um grupo de homens, às nove da noite, num autocarro depois de ter ido assistir à “Vida de Pi”. É para mim e para as meninas que, todos os dias, na Guiné Bissau são vítimas de mutilação genital feminina à sombra de crenças e de Deuses que acreditam que não merecem sentir prazer. É para mim e para todas as mulheres que têm que usar burka. É para mim e para todas as mulheres que são vendidas como escravas sexuais neste mundo fora. É para mim e para todas as mulheres na Arábia Saudita que ainda não podem conduzir, mas que, em 2016, quando se realizarem eleições autárquicas, vão poder candidatar-se e votar. É para mim e para as mulheres da Nigéria, para quem a violência “vinda do marido com o objectivo de corrigir a sua mulher” está prevista na lei. É para mim e paras a mulheres de Madagáscar que não podem trabalhar em fábricas à noite, a não ser que estas pertençam à sua família. É para mim e para as mulheres da República Democrática do Congo, que são obrigadas a casar e a viver com os marido e a estar com eles onde quer que “o homem decida viver”, não podem assinar qualquer contrato, escolher um emprego ou ter um negócio sem a autorização do cônjuge. É para mim e para as mulheres da Tunísia e dos Emirados Árabes Unidos que recebem apenas metade da herança em relação aos irmãos do sexo masculino. É para mim e para uma em cada 4 que, em Portugal, se encontra desempregada. É para mim e para as mulheres que em Portugal, em 2015, continuam a sofrer uma disparidade salarial de 13% face aos homens que ocupam iguais cargos.

“O que eu mais admiro nas mulheres? Isso é claramente uma pergunta armadilhada. Aquilo que verdadeiramente faz as mulheres serem mulheres são questões anatómicas dignas da maior admiração. Só que, infelizmente, elas não podem ser explicitadas sem um homem correr o risco de parecer deselegante e primário.
Qualquer resposta está, por isso, condenada ao fracasso. Por um lado, se eu disser que aquilo que mais gosto numa mulher são determinados detalhes da sua anatomia, serei imediatamente acusado de misoginia e de objetificação. Por outro lado, se disser que são determinados traços do seu carácter, serei imediatamente acusado de generalização abusiva e de promoção de estereótipos.
Ora, isto só pode significar uma coisa: que esta pergunta foi inventada por uma mulher. E é isso que eu mais admiro nelas: a capacidade que têm de nos empurrarem para becos sem saída, de onde só podemos sair derrotados, de cabeça baixa e rendidos aos seus ardis. Ah, as sereias…”

 

“O que mais admiro numa mulher é o poder de dizer um não redondo — há poucas pessoas que têm coragem de dizer não. As mulheres são fascinantes exatamente porque são mulheres, não devem querer ser homens.”

 

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