|tês, dia tês do tês|

e já lá vão 57 anos desde que dizia isto.

todos os anos o tio faz questão de nos lembrar deste momento, do momento a partir do qual ela conseguiu verbalizar o seu aniversário.

não é fácil falar da minha relação com a minha mãe. são papeis que se confundem graças a uma cumplicidade inexplicável. Fomos e somos cúmplices no dia a dia. basta a forma como ela ou eu atendemos o telefone para saber se está ou não tudo bem. temos personalidades semelhantes que divergiram à medida que os anos foram passando. pensando bem, não divergimos assim tanto. apenas o foco da nossa atenção está em pontos diferentes. chocamos muitas vezes, principalmente na minha adolescência, mas nada que uma noite bem dormida não resolvesse.

não sei ficar chateada com a minha mãe. não sei nem quero saber.

nunca menti à minha mãe [omiti apenas uma pequena aventura que tenciono contar-lhe daqui a muitos anos, quando ela já não ficar chateada e se conseguir rir das peripécias em que me meti]. nunca senti necessidade de lhe mentir. a bem ou a mal, lá lhe contava as coisas, deixando-a, por vezes, em choque e irritada, mas conseguindo sempre levar a minha avante. se nos zangávamos, a discussão era dura, mas era por pouco tempo.

eu e ela combinávamos de forma a “proteger” o meu pai dos potenciais desgostos que as minhas peripécias lhe poderiam causar. cogitávamos sempre uma forma de o proteger, de fazer tudo para que eu pudesse viver a adolescência em pleno sem “magoar” o meu pai.

mais tarde, foi minha confidente nos namoros “mais à séria”, daqueles que frequentam a casa e conhecem os pais. desde sempre deixou bem vincada a sua opinião sobre esses “namorados”; nunca escondeu que não gostava das minhas escolhas, mas nunca me proibiu de nada.

limpou-me as lágrimas e fez-me levantar a cabeça e seguir em frente. “De amor não se morre; vive-se”, dizia ela e dizia o poeta.

foi também minha conselheira no que diz respeito ao casamento, ao funcionamento de uma relação equilibrada e do respeito mútuo. em muitas coisas sigo o seu exemplo [creio até que lhe copiei os critérios na escolha do marido]. se escolhi casar pela igreja não foi apenas para fazer a vontade ao meu pai, nem apenas porque acredito no matrimónio; escolhi casar na igreja, na mesma igreja onde os meus pais haviam casado 33 anos antes, como homenagem à relação que me serve de exemplo e como que a reclamar a mesma sorte para mim.

sem dúvida, a minha mãe é uma verdadeira companheira. não só para mim, como para o meu pai, a minha irmã, os meus sobrinhos. uma verdadeira guerreira, com uma personalidade de fibra e que tem vindo a aguentar-se estoicamente para proteger os que ama. feitiozinho torcido e difícil de vergar, mas mole como manteiga se fizermos as coisas do jeito certo.

mais do que mãe, foi, é e sempre será a minha melhor amiga. recuso convites e adio planos para poder estar com ela, ouvi-la e apoiá-la.

faço-me forte por ela. escondo as lágrimas por ela. guardo na memória até mesmo as bofetadas, as palmadas e os ralhetes. guardo-a na memória, todos os dias mais um bocadinho. prendo-a a mim, a nós e à nossa família. hoje e todos os dias.

e serão sempre tês, dia tês do tês.

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