|pessoas diretas, frontais e desbocadas|

[ou dos Pretos, dos Brancos e dos Cinzentos desta vida]

todos somos frontais, todos somos diretos, todos gostamos de dizer aquilo que pensamos.

uns mais ponderados do que outros, todos lá vamos dizendo que somos “pessoas frontais”, que gostamos de “frontalidade”, que gostamos de quem diz o que pensa e não se fica por meias tintas, a aguardar a opinião dos outros, e evitando tomar posição de forma a não se comprometer.

vemos exemplos destes no dia a dia. na rua, no metro e na comunicação social.

para muitos é uma virtude, uma qualidade.

para outros, apenas um traço de personalidade.

depois, vêm os “politicamente corretos”, quase que em oposição aos “frontais”; aqueles que dizem apenas na medida certa da ocasião, aqueles que dizem “nim” quando não querem dizer que não ou que sim.

para os “frontais” os “politicamente corretos” são os cinzentos desta vida. são aqueles que não são carne nem peixe. são aqueles que não dizem nem deixam de dizer. gostam de posições neutras, gostam da sombra, do backstage. não gostam de holofotes, não gostam de polémicas, não gostam de ruído nem de situações inusitadas.

mas os “politicamente corretos” também podem ser vistos como os “ponderados”, como aqueles que medem as palavras e as consequências das mesmas, como aqueles para quem a liberdade termina onde termina o seu nariz.

já os “frontais” podem ser vistos como impulsivos e, até mesmo, auto-destrutivos.

dizer o que se pensa quando se tem um determinado estatuto na sociedade a que se pertence, quando se tem já uma idade respeitável e quando, aparentemente, não há nada a ganhar, para mim, não é sinal de audacidade, de frontalidade ou tão-pouco de arrojo. dizer o que se pensa, pondo em causa a estrutura de um partido ou de uma instituição, questionando determinados pressupostos e fazendo uso do estatuto granjeado na cena política nacional e mundial, pode ser apenas sinal de falta de lucidez, de busca pelo protoganismo, de fascínio pelos holofotes. mesmo que seja aos 90 anos. para mim, talvez seja apenas sinal de falta de bom senso, de algum flash de senilidade, de alguma falta de ponderação.

a idade, supostamente, suaviza as arestas; traz-nos paz de espírito, moderação e ponderação. traz-nos também alguma clareza de espírito e alguma liberdade para dizer o que pensamos, para dizer o que sentimos, para defendermos o que acreditamos. na medida certa, na medida em que não coloque em causa todos os valores que fomos defendendo ao longo dos anos.

quase como que a pedra de gelo no copo de whisky – duas pedras de gelo num copo com três dedos de bebida poderá ser o ideal; mais meia pedra que seja, diluirá o líquido e fará com que perca as qualidades que os anos de envelhecimento em cascos de nobre carvalho lhe conferiram.

no teatro é comum dizer-se “sai de cena quem não é de cena”, e nunca nada me pareceu tão apropriado aos dramas da cena pública/política atual como as expressões do mundo do teatro.

[às vezes aprendemos isto da pior forma possível; mas o importante é aprender]

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