[do dia dos avós]

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Já há muitos anos que não tenho avós e desde cedo aprendi a sentir a falta deles…

Principalmente do meu avô paterno. Morreu quando eu tinha 6 anos mas lembro-me dele como se fosse hoje.

Ainda sinto o cheiro da água de colónia dele… parece que ainda o consigo ver a barbear-se junto do lavatório em ardósia que tínhamos na casa de banho cá de fora… passava a lâmina e olhava para mim, explicando-me, com a boca meio de lado, que aquilo era coisa de homens, que eu era uma menina e que nunca ia precisar de fazer aquilo…

Eu divertia-me imenso quando, depois das refeições, lhe implorava para tirar a dentadura para eu o ver a escová-la… coisa nojenta de se ver mas eu achava piada e ele fazia a brincadeira de mexer os dentes, fazendo de conta que a dentadura mexia sozinha.

Nunca fui filha única, nem neta única… era uma das do meio, no meio de 13 netos. Sempre tive companhia, sempre tive de partilhar a atenção, mas, no entanto, sempre fui muito mimada pelo meu avô e pelo meu pai.

O meu avô, taxista tal como o meu pai, gostava de me levar com ele quando saía. E eu gostava de o acompanhar. Quer no carro, quer em casa, eu andava – qual carrapato, qual quê – colada no meu avô. E ainda hoje há determinados cafés onde entro e os funcionários mais antigos se referem a mim como “a neta do Zé de Valongo”.

O meu avô, com !,80mt e óculos à “Marcelo Caetano”, era uma figura respeitável, de peito largo e coração enorme. No dia antes de falecer ajudei-o a arrumar umas telhas que estavam na eira para dentro da garagem, pois era 5ª feira Santa e a eira tinha de ficar arrumada para os festejos de Páscoa. Lembro-me de uma discussão que assisti através do pequeno postigo da garagem. Lembro-me do jantar – pataniscas com arroz de feijão vermelho no meu prato de plástico azul. Foi-se deitar enquanto a minha avó assistia televisão (“A Cornélia” ou “A Filha da Cornélia”).

Desapareceu da noite para o dia e eu recordo-me perfeitamente de como foi dada a notícia. Foi a primeira vez que vi o meu pai chorar e foi a primeira vez que tive consciência do que era a morte; do que era partir e não voltar mais. Ainda lhe toquei nas mãos frias quando já se velava o corpo dele, mas não foi suficiente para ele “acordar”. Eu tinha acabado de fazer 6 anos e tinha-o ajudado a escovar a dentadura na noite anterior.

Não conheci a minha avó materna, adoro os meus outros avós, mas tinha um carinho muito grande por este…

Eu era – e serei sempre – a sua carriça, a neta do Zé de Valongo.

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[do dia dos avós]

Para bater à porta...

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