|sonhar acordada|

morningeggs: “ Ok, good. ”

Fonte: morningeggs: Ok, good.

mais ou menos em jeito de bom dia.

podia ser assim, podia… mas acho que vamos ficar pelo queijo, pela fruta (sem ser figos) e pelo leite…

desde há uns meses que os pequenos-almoços mudaram, que as rotinas mudaram, que a agitação aqui em casa passou a ser outra.

agora é preparar lanches e almoços para dois, preparar pequenos-almoços para dois. para dois que têm hábitos muito distintos.

eu gosto de tomar pequeno-almoço na sala, enquanto vejo as notícias. já ele, gosta de tomar pequeno-almoço na cozinha, em silêncio.

eu gosto de tomar o pequeno-almoço com calma, antes do banho e ainda de pijama. ele gosta de tomar o pequeno-almoço já prontidão a sair.

estamos ainda  a ajustar-nos mas eu estava seriamente habituada ao silêncio e à calma das minhas manhãs…

|sonhar acordada|

|faz-me espécie|

chega mesmo a irritar-me alguns comportamentos à mesa.

desde a forma como se segura o garfo [nada de punhos cerrados em torno do garfo com o polegar a vir por cima], à velocidade com que se leva a comida à boca, à quantidade de comida que se leva à boca, aos barulhos que se fazem e até mesmo à forma como se arrumam os alimentos no prato.

não sei se terei algum tipo de comportamento obsessivo-compulsivo mas são coisas que me irritam e às quais dificilmente fico indiferente.

é isso e estragar comida. pedir uma torrada para pequeno-almoço e deixar ficar a côdea e uma boa parte do miolo agarrado. olhava-se para aquele prato e era bem pior que o mar dos sargaços. mais de metade da torrada estava ali, esfrangalhada.

pergunto-me eu: se não gostam de côdea, porque não pedir uma torrada aparada? ou um pão? ou outra coisa qualquer que não tenha aquelas extremidades?

a questão de “tanta gente a passar fome e “aquilo” ali vai direto para o lixo” também me ocorre… mas a irritação com o estado em que fica o prato, a mesa e os guardanapos causa-me uma espécie de urticária.

 

|faz-me espécie|

|back from outer space [again]|

foram alguns meses de ausência, sem motivo aparente.

apenas a falta de vontade, o excesso de trabalho [sentada ao computador] e a falta de assunto.

dou por mim a “escrever de cabeça”, a assistir a determinadas situações e a pensar, linha a linha como as escreveria aqui, a pensar se essas situações fazem sentido para mais alguém, ou mesmo se irritam mais alguém para além de mim.

já não é novidade, nem é a primeira vez que o escrevo, mas tivesse eu um teclado acoplado à cabeça e era bem mais produtiva.

[o que talvez não seja boa ideia, caso contrário só sairiam disparates].

mas agora de volta, vou tentar ser mais assídua, nem que seja para assumir o compromisso de escrever um pouco todos os dias, nem que seja para aliviar o stress ou partilhar algumas dúvidas que vão surgindo.

so, i’m back (for good, i hope).

|back from outer space [again]|

|gerir a mudança|

como em tudo na vida, a grande dificuldade não está na mudança, está na gestão.

na gestão dos tempos, dos passos, das etapas, dos meios, das pessoas e, mais difícil ainda, das expectativas.

estou a aprender a mudar e a gerir essa mudança. a aprender a transformar ansiedade em entusiasmo, a aprender a viver o momento, o aqui e o agora. a apreender a equacionar cenários sem viver presa entre as paredes desses mesmos cenários. mesmo que isto pareça um contra-senso com o aqui e o agora.

estou a tentar concentrar-me na parte positiva, na parte em que é possível tornar os sonhos reais, mesmo que estes se desfaçam com um estalar de dedos.

aprender a ver as coisas pelo lado positivo, pois nem tudo pode ser mau.

prefiro acreditar que o pão do pobre não cai sempre com o lado da manteiga para baixo.

e que algum dia as coisas vão mudar.

com isto acho que me posso despedir de 2015 e que venha de lá esse 2016. é que este ano já deu o que tinha a dar.

|gerir a mudança|

|fazer sentido|

12143081_1122274354464520_3639319911961175406_nnão, não fazemos balanços.

balanços faremos lá mais para a frente, quando formos os dois velhinhos, quando estivermos lado a lado, escondidos entre mantas e a tentar recordar cada um dos 50 anos que passamos juntos.

hoje olhamos apenas para trás e recordamos o momento em que oficializamos o que nos une. hoje olhamos para o que se passou há cinco anos, juntamos as mãos em frente do mesmo altar e, sem tirarmos os olhos um do outro, constatamos que faríamos tudo igual. no mesmo local, à mesma hora e com as mesmas pessoas (mais aquelas que estes 5 anos nos trouxeram).

há cinco anos não chovia, não era dia de eleições e ainda era feriado no dia seguinte.

há cinco anos acordamos com a sensação que este seria apenas o primeiro dia das nossas vidas. desde há cinco anos que todos os dias é o primeiro dia das nossas vidas. todos os dias enfrentamos novos desafios, descobrimos novas forças, desvendamos novos defeitos e constatamos novas qualidades e novas razões que nos fazem desejar acordar lado a lado todos os dias.

hoje, olhando as fotos, revendo os olhares e sentindo os abraços, constatamos que tudo mudou.

e que tudo faz muito mais sentido agora.

|fazer sentido|

|imagens gravadas a ferro e fogo|

às vezes desejava que que os meus olhos fossem capazes de fotografar exatamente aquilo que a minha mente está a ver, sem tirar nem pôr. não para poder meramente partilhar, mas para guardar para sempre, para recordar com atos e imagens aquilo que as palavras não chegam para demosntrar. para gravar na mente, a ferro e fogo, e impedir que algum dia a memória me atraiçoe.

e ontem, tal como há oito anos, abriu-se na minha memória uma nova caixa para guardar para sempre a principal razão que me faz acreditar no amor, nas relações, na amizade e na cumplicidade.

ontem – como há oito anos, mas em papéis invertidos – ela acariciou-lhe os braços, rodeou o rosto dele com as suas mãos e falou-lhe com a voz mais carinhosa que alguma vez lhe ouvi: “então? vamos levantar! vamos animar e erguer a cabeça! estou aqui, do teu lado, hoje e sempre, e quero ver-te bem outra vez. quero ver-te sorrir e sorrir contigo. as tuas filhas estão a contar contigo e eu também”. ele apenas abriu os olhos e deixou escapar por entre os lábios:”eu vou ficar bem. por ti e por elas”.

da soleira da porta eu olhava-os em silêncio e recordava o abraço que os envolvera há 8 anos. nessa altura, junto à porta do quarto deles, eu decidi que queria para mim uma história de amor como aquela. um amor à séria, daqueles que nos mostram com quem podemos contar nos bons e maus momentos. daqueles que concretizam as palavras que nos habituamos a ouvir no cinema – na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias da minha vida. e decidi que queria viver 30 anos com a mesma pessoa e sentir algo assim, viver algo tão genuíno como o quadro que se desenhava à minha frente.

ontem, tal como há oito anos, da soleira da porta, eu olhava-os em silêncio e reaprendia o verdadeiro sentido da vida.

|imagens gravadas a ferro e fogo|

|eu, filha de taxista, me confesso|

como neta e filha de taxista, cresci no tempo do rádio-taxi, no tempo em que os taxis chamavam uns pelos outros através do rádio-taxi.

lá em casa havia até uma antena instalada. e eu divertia-me a ouvir verdadeiras radio-novelas ao sábado e domingo de tarde.

[por vezes, cheguei a pegar na espécie de “walkie-talkie” e tentar meter conversa com que estava do lado de lá]

lembro-me de ouvir a minha mãe chamar pelo meu pai pois tinha clientes a requisitar os seus serviços:

  • “RR”?
  • “escuto”
  • “é para levar à praça x… quanto tempo?”
  • “20 minutos e estou aí”

ou então os amigos do meu pai:

  • “RR?”
  • “Escuto”
  • “É um carro ao café Rocha”
  • “É para esperar?”
  • “é coisa rápida”

cresci a ver o meu pai levar clientes a Espanha, a Fátima, a Lisboa. cresci a ver o meu pai levantar-se de madrugada para levar clientes para as fábricas ou para a bruxa. cresci a ver o meu pai deixar de trabalhar de noite para não deixar sozinhas a mulher e duas filhas. cresci a ver o meu pai sair de casa de madrugada apenas para levar pessoas que conhecia bem [enquanto a minha mãe ficava com o coração nas mãos, pois, segundo ela, nunca fiando].

cresci a ver os clientes confiarem-lhe a chave de casa quando partiam do aeroporto para uns dias de ausência. ainda hoje é comum o carro encher-se de todo o tipo de presentes em épocas festivas. desde doces a garrafas de vinho, passando por pijamas e roupões, e até animais vivos, os clientes do meu pai têm vindo a retribuir o carinho e a atenção com que os trata. [ainda hoje sou “neta” de algumas pessoas que viajam com o meu pai desde há 30 anos].

mas o meu pai não é exemplo. eu sei disso e ele também.

sendo associado da Antral, é um carro de aluguer e não propriamente um taxi. tem lugar na praça mas não pode apanhar serviços em qualquer lado. já pagou não sei quanto nem quantas vezes para poder renovar a licença. já teve de constituir sociedade, dissolver sociedade, pintar o carro de bege, e voltar a pintar de preto e verde, com as devidas alterações de livrete.

o meu pai é do tipo de pessoa que cumpre as regras à risca. se é para instalar um taxímetro xpto, ele vai e instala. se é para fazer x horas de formação, ele vai e faz. se é para renovar o CAP, ele vai e renova. se é para alterar as tarifas, ele vai e altera.

o meu pai é o tipo de taxista para quem o cliente tem sempre razão e que prima pela honestidade e sinceridade.

já ganhou por ser assim [muito boas gorjetas!] e já perdeu por ser assim [foram vários os tipos que sairam do carro para ir buscar/levantar dinheiro e nunca mais voltaram]

sei que paga anualmente um valor elevado quer esteja a faturar, quer tenha o carro na oficina. sei que tem sempre o carro impecável, por dentro e por fora. sei que o ponteiro do gasóleo nunca passa do meio depósito para baixo. não há areias nem migalhas, nem vidros defumados. nunca, em nenhum dos carros que passaram pelas mãos do meu pai, se fumou [o meu carro, ex-taxi, ainda conserva a placa original no tablier com o “Proibido Fumar. Obrigado!”]. sei que conduz com calma e não se mete em grandes aventuras.

talvez por ser filha de um taxista, estive sempre muito atenta ao “comportamento da classe” e é deprimente. eu sei disso e o meu pai também.

em análise do que se passou hoje, só posso dizer que o meu pai – e eu – sente vergonha alheia das imagens que circulam. para um taxista como o meu pai, o problema não está na Uber. Regularizem a atividade e coloquem em pé de igualdade com a atividade do transporte de passageiros e estamos todos bem. o problema vem de dentro. vem dos próprios taxistas que minam a classe, que minam a atividade. são mal educados, são trapaceiros, são arrogantes e são uns estupores que estragam a vida uns aos outros. vêm para a rua protestar contra a Uber, agridem-se uns aos outros e, pelas costas, praticam preços mais baixos para quem lhes interessa. em alguns casos, há até quem continue a exercer a atividade em carros particulares, mesmo depois de extinta a licença e de convertido o carro.

o meu pai não é taxista de grande cidade. trabalha por conta própria com tudo o que isso tem de bom e de mau. não rouba trabalho nem “mete a foice em seara alheia”. hoje não fez greve. acho mesmo que nunca fez greve em 46 anos de trabalho. é um direito dele e não tem de ser agredido ou insultado por isso.

para os poucos – que ainda os há – como o meu pai, o problema não é, nem nunca será a concorrência. o problema está no caráter de quem se senta ao volante, seja ele taxista ou condutor da Uber.

|eu, filha de taxista, me confesso|

|big brother is watching you|

A moda dos vídeos e das fotos de situações embaraçosas tem vindo a fazer-me uma coceira desmedida.

Toda a gente gosta de passear pelo youtube e rir a bandeiras despregadas graças aos videos dos desgraçados que se estatelam contra uma qualquer árvore/poste/parede enquanto tenta fazer qualquer proeza… atira a primeira pedra quem não se desfez a rir com os trambolhões mal dados durante uma proeza de skate, ou uma queda aparatosa num qualquer piquenique de família enquanto se agarra uma corda e se salta para o rio… [mea culpa].

todos nós fizemos disparates. todos nós caímos em situações caricatas, todos nós rimos de alguém que se estatelou no meio da rua, todos sem excepção… mas a grande maioria deve dar graças por na altura não ser ainda comum colocar essas imagens para todo o mundo ver [eu dou graças por não haver facebook ou twitter no meu tempo de criança ou no meu tempo de queima das fitas].

sim, hoje em dia perpetua-se a asneira ao colocá-la nas redes sociais. já nada do que aconteceu no passado fica no lugar onde pertence – ao passado. para o bem e para o mal.

em conversa com uma amiga, em tempos, falávamos sobre a pressão a que todos estamos sujeitos, enquanto almoçávamos. parte da comida que lhe vinha no prato não estava grande coisa e ela decidiu colocar no tabuleiro e levar para trás.

“Já viste se me fotografam ou filmam agora e colocam nas redes sociais?! não tarda nada estou a ser julgada por deitar comida fora, por desperdiçar quando há tanta gente a morrer de fome. não tarda nada, estou a ser julgada em praça pública”.

passaram-se sensivelmente dois meses desde essa nossa conversa até esta notícia:

THE GREAT #PLANEBREAKUP OF 2015

Ao que parece, a “notícia” – ou “não notícia” também já foi divulgada pelos órgãos de comunicação social portugueses… um casal de namorados terminou a sua relação durante um vôo de 9 horas e alguém num dos lugares próximos decidiu transmitir a discussão, acompanhada de imagens, via twitter.

E é a isto que nos encontramos expostos. era isto que Orwell previra. era esta a sociedade do “1984” em que cada indivíduo espia e controla os seus iguais. é esta a “aldeia global”.

e isto é válido para conversas reproduzidas, para fotos e videos tirados/gravados à socapa, para tudo aquilo que nos é expropriado quando vivemos numa sociedade que se refugia no conceito de “rede social”.

a noção de liberdade é um pouco constrangedora quando a maior parte não conhece os seus limites… para mim continua a valer: “a minha liberdade termina onde começa o nariz do outro”…

|big brother is watching you|

|i’ve got everything|

a semana vai longa e os dias demasiado intensos. ando submersa numa série de ideias que me fazem debitar trabalho mesmo enquanto caminhamos, quando estamos em casa e enquanto jantamos.

reservo-me o pequeno-almoço para não falar, para fazer de conta que ouço as notícias enquanto tento não pensar.

sei que estás ali, bem ao lado, sem dizeres nada e fazendo de conta que não reparas que a minha cabeça não está ali, e nem sequer perto disso.

por norma não reparo em nada.

sei que as janelas estão abertas, porque tu já as abriste e o dia já nasceu.

mas hoje reparei na forma como me olhavas. horas depois ainda sinto os teus olhos cravados na minha pele. e essa foi, sem dúvida, a melhor forma de começar o dia.

“I’ve got you”

|i’ve got everything|