|fecho central|

é o “click” do fecho central das portas do carro que liga e desliga a minha mente.

mal saio de casa, é este pequeno barulho que coloca o meu cérebro em modo “pro” e me impede de afundar nos meus próprios problemas, nos assuntos pessoais, nas confusões que se arrastam porta de casa adentro. é este “click” que me permite focar no essencial, que me permite concentrar e resolver as questões profissionais que me absorveram durante toda a semana.

este “click” dá-se segundos depois de colocar o carro em marcha, tão rápido quanto o diabo esfrega um olho. a partir daqui, entramos em modo piloto automático, com uma série de questões em mente, processos, listagens, plantas e mapas. o momento é único e exige concentração máxima.

horas depois, regresso ao carro e dá-se novo “click”. agora é tempo de voltar a casa. é tempo de pegar na vida que estava em stand-by e reactivá-la. é tempo de pegar na vida e resolver. um problema de cada vez. é tempo de pegar na vida e encontrar novos caminhos.

enquanto vou no carro, permito-me a que as lágrimas corram, permito-me a ver tudo de forma nublada. este é o meu espaço, é o meu tempo. aqui não tenho de ser forte, não tenho de ser optimista, não tenho de sorrir quando por dentro já me desfiz em mil pedaços.

e recordo-me de Fernando Pessoa.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

e, nisto, regresso a casa. sorriso nos lábios, voz tranquila e olhos secos.

regresso a casa e dá-se novo “click”. agora em modo “super-mulher” [e “super-filha” e “super-irmã” e “super-tia” e “super-madrinha”].

movo mundos e fundos. transporto a dor e as angústias dos outros para outros mundos. faço das tripas coração, e da cabeça um veículo motorizado.

|fecho central|

|decor “out of the box”|

porque nem todos os quartos de menina têm de ser rosinhas, amarelinhos, lilasinhos, verdinhos e por aí fora…

porque nem todos os quartos têm de ser em tons pastel.

e porque ainda há quem goste de desenvolver novos conceitos e fazer do quarto uma verdadeira banda desenhada…

AD Room AD Room AD Room AD Roomuma verdadeira inspiração pelos designers nova iorquinos Sissy + Marley

 

>> créditos | Imagens | Adore Home Magazine

 

|decor “out of the box”|

|das coisas que fazem mais sentido hoje|

o orgulho.

sem dúvida alguma, o orgulho no pai que tenho.

há dias, secava-lhe as lágrimas quando se achava demasiado “lamechas” para ser o “homem da casa”, para ser o líder. achava-se incapaz por fazer da sua bondade a medida para a bondade dos outros. achava-se incapaz por ser capaz de se colocar no papel dos outros e de não ser capaz de prejudicar ninguém. antes prejudicar-se a si do que aos outros.

há uns bons anos atrás – 14 anos, talvez – demos-lhe os bons dias quando ele ainda estava na cama. levantamo-nos bem cedo e rodeamos-lhe a cama para o surpreender. a surpresa fê-lo duvidar se teria sido sempre um bom pai pois nem sempre nos dera aquilo que queríamos.

há uns bons anos atrás, tinha eu uns 17 anos, fechei a porta de casa ao meu pai como reacção ao facto de me terem fechado a porta de casa por ter chegado depois da hora. recebi o maior castigo de sempre: a indiferença do meu pai durante 5 dias consecutivos. nunca nada foi tão penoso, nunca nenhum castigo me doeu tanto e nunca nenhuma outra experiência me ensinou tanto.

há uns anos, levou-me a casa de uma amiga para que fossemos passar uns dias de férias. despediu-se de mim com os olhos marejados. perante o espanto da minha amiga, expliquei-lhe que não se tratava de duvidar ou não da qualidade da condução dela, mas sim do facto de me afastar de casa por quatro dias. de me afastar dele por 4 dias.

ao longo dos anos fomos sempre crescendo com a nítida consciência da efemeridade da vida, com a consciência que somos o aqui e o agora, que nos podemos perder uns dos outros e que nos podemos perder uns aos outros. foi assim quando aos 3 anos de idade vi levarem o meu pai numa maca, tirarem-no de casa a meio da noite e só o devolverem na manhã seguinte. e é assim de cada vez que o vejo com uma “aflição”, de cada vez que o vejo com uma indisposição, de cada vez que olho para as mãos trémulas e percebo que algo não vai bem.

de cada vez que as coisas correm mal, a cada vez que ele duvida da sua capacidade de líder, da sua capacidade para ser um bom pai, eu procuro lembrá-lo que tenho muito orgulho em ser filha dele! que posso sair à rua de cabeça erguida graças à educação que ele me deu. que posso ir na rua e cumprimentar este mundo e o outro pois sou filha do Araújo e neta do Zé de Valongo.

Se algum dia duvidares da tua capacidade de ser pai, podes sempre passar neste meu cantinho e reconheceres nas minhas palavras a tua bondade, a tua coragem, a tua honestidade e a tua resiliência. sem dúvida, posso dizer que sou hoje o espelho daquilo que me ensinaste e tenho tanto, mas tanto orgulho nisso!!!

Obrigado, Pai! Por tudo!

|das coisas que fazem mais sentido hoje|

|em jeito de regresso|

dias cheios, com tanta coisa a acontecer, com uma mente quase a explodir e uma energia frenética que se opõe ao cansaço físico.

por aqui estivemos em pausa e procuramos arrumar as ideias em palavras, em frases com sentido.

por aqui, arrumamos a cabeça para voltar a escrever. arrumamos a cabeça para fazer com que as palavras fluam, uma a uma, sem atropelos nem empurrões.

por aqui há tanta coisa para colocar na ordem. a casa já está. agora falta este espaço aqui.

e isto vai servindo de inspiração…

|em jeito de regresso|

|sobre isto do Dia Internacional da Mulher|

não o comemoro de forma particular, não assinalo o dia com uma comemoração especial, nem exijo tratamento especial.

exijo o que exijo todos os dias: respeito, carinho e compreensão. por esta mesma ordem e está de boa medida.

mas isto porque cresci com a certeza que as mulheres jamais serão iguais aos homens e com a certeza que não quero que assim seja. cresci com a certeza que o respeito pela condição humana é igual independentemente do género, da raça ou da crença.

lá em casa nunca houve grande distinção entre tarefas “de mulher” e tarefas de “homem”. cada um faz o que lhe compete numa casa dominada por mulheres. o meu pai estava em minoria e nem por isso foi um privilegiado. ainda hoje é o dia em que, estando todos à mesa, ele se levanta para começar a arrumar; ainda hoje é o dia em que ele se levanta mais cedo para limpar o fogão a lenha e o acender para que a cozinha esteja sempre mais confortável.

numa casa onde todos somos iguais, havia apenas duas diferenças.

1ª – para o meu pai, as meninas não devem jogar futebol pois ficam com as pernas arqueadas

2ª –  cá em casa pai e mãe mandam em igual medida.

crescer numa família dominada por mulheres, algumas das quais viúvas, ajuda a perceber que a força física não é exclusiva do género masculino, que a dureza das palavras e a ausência de lágrimas também não. crescer rodeada de mulheres que vivem em pé de igualdade com os homens que escolheram ter do seu lado fez-me crescer com a certeza que a liberdade e o direito de escolha fazem parte da condição humana e não do género.

cá em casa, os homens também choram, também se emocionam com o “Ponto de Encontro” ou com as novelas; cá em casa os homens também se emocionam nas reuniões familiares e quando enaltecem o crescimento dos filhos.

cá em casa as mulheres são mais fortes, mais resistentes e mais persistentes; cá em casa são, essencialmente, as mulheres que dão o corpo às balas e desafiam as instituições.

cá em casa os homens raramente cozinham porque dificilmente têm a oportunidade de o fazer; mas arrumam, lavam, limpam e mudam fraldas como qualquer outra pessoa.

cá em casa, tão depressa deixava um recém-nascido com a minha mãe como com o meu pai e saía descansada. cá em casa, a única diferença entre homens e mulheres é que estas engravidam e têm a benesse de dar à luz e aqueles não. mas têm exatamente a mesma obrigação e a mesma responsabilidade na educação e criação dos filhos.

cá em casa é assim. mas em muitas outras casas isso não acontece. daí a necessidade de celebrarmos e reivindicarmos a existência de um dia em defesa da igualdade de direitos, de oportunidades e de tratamento.

por isso destaco apenas um texto que li a propósito deste dia e uma resposta inteligente a uma pergunta traiçoeira:

E é para mim e para todas as mulheres que, fora do meu etnocentrismo, continuam a precisar de um dia que as lembre da luta pela igualdade. É para mim e para Jyoti Singhque, a rapariga de 23 anos que, na Índia, foi violada por um grupo de homens, às nove da noite, num autocarro depois de ter ido assistir à “Vida de Pi”. É para mim e para as meninas que, todos os dias, na Guiné Bissau são vítimas de mutilação genital feminina à sombra de crenças e de Deuses que acreditam que não merecem sentir prazer. É para mim e para todas as mulheres que têm que usar burka. É para mim e para todas as mulheres que são vendidas como escravas sexuais neste mundo fora. É para mim e para todas as mulheres na Arábia Saudita que ainda não podem conduzir, mas que, em 2016, quando se realizarem eleições autárquicas, vão poder candidatar-se e votar. É para mim e para as mulheres da Nigéria, para quem a violência “vinda do marido com o objectivo de corrigir a sua mulher” está prevista na lei. É para mim e paras a mulheres de Madagáscar que não podem trabalhar em fábricas à noite, a não ser que estas pertençam à sua família. É para mim e para as mulheres da República Democrática do Congo, que são obrigadas a casar e a viver com os marido e a estar com eles onde quer que “o homem decida viver”, não podem assinar qualquer contrato, escolher um emprego ou ter um negócio sem a autorização do cônjuge. É para mim e para as mulheres da Tunísia e dos Emirados Árabes Unidos que recebem apenas metade da herança em relação aos irmãos do sexo masculino. É para mim e para uma em cada 4 que, em Portugal, se encontra desempregada. É para mim e para as mulheres que em Portugal, em 2015, continuam a sofrer uma disparidade salarial de 13% face aos homens que ocupam iguais cargos.

“O que eu mais admiro nas mulheres? Isso é claramente uma pergunta armadilhada. Aquilo que verdadeiramente faz as mulheres serem mulheres são questões anatómicas dignas da maior admiração. Só que, infelizmente, elas não podem ser explicitadas sem um homem correr o risco de parecer deselegante e primário.
Qualquer resposta está, por isso, condenada ao fracasso. Por um lado, se eu disser que aquilo que mais gosto numa mulher são determinados detalhes da sua anatomia, serei imediatamente acusado de misoginia e de objetificação. Por outro lado, se disser que são determinados traços do seu carácter, serei imediatamente acusado de generalização abusiva e de promoção de estereótipos.
Ora, isto só pode significar uma coisa: que esta pergunta foi inventada por uma mulher. E é isso que eu mais admiro nelas: a capacidade que têm de nos empurrarem para becos sem saída, de onde só podemos sair derrotados, de cabeça baixa e rendidos aos seus ardis. Ah, as sereias…”

 

“O que mais admiro numa mulher é o poder de dizer um não redondo — há poucas pessoas que têm coragem de dizer não. As mulheres são fascinantes exatamente porque são mulheres, não devem querer ser homens.”

 

|sobre isto do Dia Internacional da Mulher|

|tês, dia tês do tês|

e já lá vão 57 anos desde que dizia isto.

todos os anos o tio faz questão de nos lembrar deste momento, do momento a partir do qual ela conseguiu verbalizar o seu aniversário.

não é fácil falar da minha relação com a minha mãe. são papeis que se confundem graças a uma cumplicidade inexplicável. Fomos e somos cúmplices no dia a dia. basta a forma como ela ou eu atendemos o telefone para saber se está ou não tudo bem. temos personalidades semelhantes que divergiram à medida que os anos foram passando. pensando bem, não divergimos assim tanto. apenas o foco da nossa atenção está em pontos diferentes. chocamos muitas vezes, principalmente na minha adolescência, mas nada que uma noite bem dormida não resolvesse.

não sei ficar chateada com a minha mãe. não sei nem quero saber.

nunca menti à minha mãe [omiti apenas uma pequena aventura que tenciono contar-lhe daqui a muitos anos, quando ela já não ficar chateada e se conseguir rir das peripécias em que me meti]. nunca senti necessidade de lhe mentir. a bem ou a mal, lá lhe contava as coisas, deixando-a, por vezes, em choque e irritada, mas conseguindo sempre levar a minha avante. se nos zangávamos, a discussão era dura, mas era por pouco tempo.

eu e ela combinávamos de forma a “proteger” o meu pai dos potenciais desgostos que as minhas peripécias lhe poderiam causar. cogitávamos sempre uma forma de o proteger, de fazer tudo para que eu pudesse viver a adolescência em pleno sem “magoar” o meu pai.

mais tarde, foi minha confidente nos namoros “mais à séria”, daqueles que frequentam a casa e conhecem os pais. desde sempre deixou bem vincada a sua opinião sobre esses “namorados”; nunca escondeu que não gostava das minhas escolhas, mas nunca me proibiu de nada.

limpou-me as lágrimas e fez-me levantar a cabeça e seguir em frente. “De amor não se morre; vive-se”, dizia ela e dizia o poeta.

foi também minha conselheira no que diz respeito ao casamento, ao funcionamento de uma relação equilibrada e do respeito mútuo. em muitas coisas sigo o seu exemplo [creio até que lhe copiei os critérios na escolha do marido]. se escolhi casar pela igreja não foi apenas para fazer a vontade ao meu pai, nem apenas porque acredito no matrimónio; escolhi casar na igreja, na mesma igreja onde os meus pais haviam casado 33 anos antes, como homenagem à relação que me serve de exemplo e como que a reclamar a mesma sorte para mim.

sem dúvida, a minha mãe é uma verdadeira companheira. não só para mim, como para o meu pai, a minha irmã, os meus sobrinhos. uma verdadeira guerreira, com uma personalidade de fibra e que tem vindo a aguentar-se estoicamente para proteger os que ama. feitiozinho torcido e difícil de vergar, mas mole como manteiga se fizermos as coisas do jeito certo.

mais do que mãe, foi, é e sempre será a minha melhor amiga. recuso convites e adio planos para poder estar com ela, ouvi-la e apoiá-la.

faço-me forte por ela. escondo as lágrimas por ela. guardo na memória até mesmo as bofetadas, as palmadas e os ralhetes. guardo-a na memória, todos os dias mais um bocadinho. prendo-a a mim, a nós e à nossa família. hoje e todos os dias.

e serão sempre tês, dia tês do tês.

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|tês, dia tês do tês|

|excepcionalmente bem disposta|

acordo cedo, bem cedo, de forma a poder afastar o mau humor antes que os outros abram os olhos.

acordo bem cedo para respirar fundo, afastar a preguiça e a birra pelas poucas horas de sono.

é o meu método, é a forma que encontrei de sair de casa de bem com a vida e com o mundo [e com a chuva e com o trânsito].

excepcionalmente, hoje levantei-me bem disposta, sem snooze, sem resinga e sem grunhidos.

levantei cedo, bem cedo, pois já havia luz na sala e na cozinha.

levantei bem cedo e abri a janela da sala para poder sentar e beber o chá tranquilamente, sem olhar para o relógio, sem pensar no dia que vem por aí.

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levantei cedo, bem cedo, e saí de casa à hora de sempre, mas com o bom humor dos dias de sol.

[e valham-me as playlists do spotify)

|excepcionalmente bem disposta|