|jamais deixar mandar quem não tem coração|

conhecer a cidade pelos olhos dos taxistas é, no mínimo, uma experiência alucinante.

logo pela manhã, bem cedo, ficamos a saber que o TGV de 2ª geração está pronto e que falta muito pouco para que este chegue a portugal. Vai ficar mesmo ali ao pé da estação do oriente. a central de camionagem vai “subri” para dar lugar à estação do TGV. vai ficar assim, tudo bem pertinho. Olhe bem que sorte teremos, diz ele, tão bem servidos de transportes. aí sim, vai ser só turistas. e vamos poder viajar também. e eu até já domino o inglês, diz ele com o entusiasmo de alguém que já está a pé há algumas horas e parece ter tomado dois cafés. duplos.

numa corrida bem curta, ficamos a saber que este novo comboio chegará aos 500km/hora. mas só em determinadas partes do percurso, não é em todo o sítio. já pararam para pensar como seria fantástico fazer Caminha – Algarve em apenas alguns minutos????

é progresso, meninas, diz ele enquanto nos lança um olhar entusiasmado pelo espelho retrovisor.

é isso e saber que a smooth fm é a melhor rádio. essa e as da estação pública [há que dar graxa pois o senhor pensava que éramos funcionários da RTP]. mas também houve rádios mais jovens, como a de Cascais. Gosta é de jazz e blues e clássicas, principalmente onde não há muita gente a falar. “é que esses chateiam muito e dão sono quando vamos ao volante”. [o entusiasmo era tal que, por várias vezes, se esqueceu da caixa de velocidades, quer para reduzir quer para acelerar].

é isso e os robots que nunca poderão dominar o mundo. e sabe porquê? porque não têm coração. é praticamente impossível interromper uma ordem que se deu a um robot. teríamos de deixar que ele destruísse tudo, que cumprisse a ordem que lhe está destinada.

claramente, pessoas e máquinas sem coração jamais poderão dominar o mundo.

|jamais deixar mandar quem não tem coração|

|um café [expresso/bica]|

chegar sob um calor de ananases.

Temer pela própria integridade física dada a destreza do senhor taxista, mas deliciar-me com a história da sua vida e da vida da sua família e que podia dar direito a novela.

Sabe, diz-me ele, as novelas são a cópia do que acontece na vida real. E diga lá se não é bonito ver um casal que se enamora na adolescência, segue cada um para seu lado, encontram-se muitos anos mais tarde e descobrem que ainda gostam muito um do outro. Sabe, diz ele enquanto olha pelo retrovisor, a vida vale a pena é por isto, pelo inesperado, pelas surpresas… 

E para minha surpresa, trouxeram-me uma série de mimos junto com o meu café expresso.

  

|um café [expresso/bica]|

|atropelada por um camião|

tentar recuperar depois de 40 horas sem dormir, depois de um calor infernal [e doentio], depois de subir e descer escadas um sem número de vezes, depois de contar vezes e vezes a mesma lenda [ora em português, ora em inglês], depois de ouvir 3587 vezes a música “era só jajão”, isto é desafio para 10 doses do “despertar do buda” misturado com red bull e dois cafés expresso.

|atropelada por um camião|

|complexo de édipo|

é e será sempre o homem da minha vida, um amor daqueles que não se escolhem. daqueles amores que sabemos que estão sempre lá.

admiro-lhe o carácter, as feições e os gestos.

admiro-lhe a amabilidade, habilidade e paciência.

admiro-lhe a ternura e a honestidade.

admiro o facto de não ter medo de chorar, de se emocionar e de mostrar o que sente. [recordo-me da primeira vez que o vi chorar. “os homens também devem chorar. homens a sério sabem chorar”. tinha eu seis anos e velávamos o corpo do meu avô].

admiro o facto de, não sendo deste tempo, ser mais dos dias de hoje do que os homens de hoje.

dele herdei o tom de pele e a ansiedade. uma ansiedade que não se vê mas que está sempre lá e nos tira o sono. herdei o sistema nervoso, o medo disfarçado de coragem para aqueles que não nos conhecem. herdei também um ventrículo esquerdo disforme. gostava de herdar a bondade e a paciência, mas apenas ouvi [e ponho em prática] os gestos que me ensinou.

para as minhas amigas ele virou “o padrinho”. e, orgulhoso, recebe-as sempre de braços abertos e olhos marejados. faz questão de as acolher como se fossem suas. faz questão de mostrar o orgulho que tem nas filhas e em quem elas escolhem para as acompanhar.

tem ciúmes até da mãe. ciúmes da atenção que lhe damos, do facto de a chamarmos sempre ao telefone, de perguntarmos por ela sempre que entramos em casa. fica triste quando não cumprimentamos à chegada e mais triste ainda se não cumprimentarmos à saída.

treme de cada vez que vamos de viagem [sejam 100km ou 10 000km]. emociona-se de cada vez que alguém nos elogia. é incapaz de tirar uma foto às filhas sem que esta fique tremida ou desfocada.

questionei-o tantas vezes, testei todos os limites. os da paciência e os do amor. e tanto ele como a minha mãe me mostraram que o amor de pai e mãe não tem limites.

hoje o meu pai completa 64 anos. sei que nunca aqui chegará, que dificilmente terá qualquer contacto com este texto. sei que agora ainda deverá estar emocionado pela mensagem que lhe enviei. sei que logo o vou abraçar e dizer que o adoro. sei que vou roubar um pouco do colo para voltar a ser a menina do papá. apenas por uns instantes. para que nunca deixe de acreditar que é homem mais importante da minha vida. e para que nunca duvide que merece todo o meu carinho.

|complexo de édipo|

|sobre um amor que deveria ser incondicional e irrevogável (à maneira antiga)|

os dias não vão fáceis e as notícias são da maior podridão que pode haver.

desde a passada semana que assistimos a um rol de cenas macabras, de cenários negros e de profunda podridão da sociedade atual, da sociedade à qual eu pertenço e pela qual, também eu me sinto responsável.

não sei o que me surpreende mais… se a maldade dos putos, se o voyeurismo exacerbado dos dias de hoje… não entendo a necessidade de exibir a maldade como um troféu, a necessidade de atuar como “o olho que tudo vê”, a vontade de linchar e julgar em praça pública aquilo que são os podres da sociedade em que vivemos [este aspecto ficará para um outro post].

mas sei que me surpreende – e muito – a total “desordem” dos valores que para mim são básicos e essenciais: o amor maternal ou paternal, o respeito por mim e pelos outros e a liberdade [a qual me ensinaram que termina assim que começa a liberdade do outro].

depois de ler o artigo de Daniel Oliveira – gosto muito de muitas das sua crónicas – não podia estar mais entristecida pela “sacudidela de água do capote” que se assiste por estes dias.

não digo que os pais sejam culpados de tudo, pois, de facto, não o são. mas, em última instância, a condição de pai ou mãe presume um tal sentimento de posse, de responsabilização e de amor pelas suas crias, criando um cenário onde não há margem possível para uma desvinculação perante os atos dos filhos.

“Deus me perdoe o que vou dizer, o meu filho morreu, o que fez vai ter de pagar e sozinho, pois não posso acompanhá-lo nesta etapa. (…) Devia ser entregue para fazerem justiça pelas próprias mãos, é um desgosto muito grande, um pesadelo. A minha vida acabou, preferia mil vezes que ele estivesse no lugar do Filipe. Talvez um dia ele me perdoe por não o ter acompanhado, mas perante a situação não dá mesmo. Os pais não têm de pagar pelos erros dos filhos e vice-versa. (…) Peço perdão, não posso fazer mais nada nesta hora.” Quem escreveu estas linhas, no Facebook, esse confessionário global onde a intimidade é quotidianamente massacrada, foi a mãe de Daniel, o rapaz de 17 anos que terá cometido o homicídio de Salvaterra de Magos.

“Não julgo – como poderia julgar –as responsabilidades da mãe do Daniel pelo crime que ele cometeu. Apenas não posso, sem precisar de mais nada para além do meu instinto paternal, de deixar de me arrepiar com a forma como esta mãe oferece à comunidade, na busca de perdão para si, o seu filho para sacrifício. Só uma relação extraordinariamente deformada pode levar uma mãe a desejar a morte de um filho e a desistir dele nos piores momentos. Para julgar o Daniel estamos cá todos. Os pais amam irremediavelmente as suas belas e horrendas criaturas. E quando não amam estão amputados de forma brutal na sua existência. Podem procurar no filho a responsabilidade do seu desamor. Mas é provável que estejam à procura no lugar errado.

Mas ainda mais arrepiante do que a frase da mãe, que a perturbação, o sofrimento ou o medo podem explicar, é ler os comentários de pessoas que não estão emocionalmente envolvidas no caso e vê-las aplaudir estas frases arrepiantes, como se precisassem que a mãe do homicida se juntasse ao coletivo de juízes. Como se a singularidade do amor maternal e paternal não fosse a de até um homicida o merecer. E ao ver que nem isto é óbvio, percebo mais uma vez que o que vivi não chega para compreender todas as partes negras da vida. Nem a de que haja tanta gente que não sinta que o amor pelos seus filhos é incondicional e irrevogável. Acima do bem e do mal.”

|sobre um amor que deveria ser incondicional e irrevogável (à maneira antiga)|

|se a moda pega|

seremos bem capazes de recuar mais de 40 anos no tempo…

Senão vejamos:

“manter o seu espaço de trabalho arrumado e minimizar a utilização de objectos pessoais”; “utilizar apenas as zonas demarcadas para circulação, mesmo que seja este o percurso mais longo”; “evitar falar num tom de voz elevado com outros trabalhadores no mesmo espaço ou ao telefone fixo ou móvel; e “colocar o telemóvel em modo discreto”.

“Os trabalhadores não podem conceder entrevistas, publicar artigos de opinião, fornecer informações ou publicitar textos de qualquer natureza, que não estejam ao dispor do público em geral, por iniciativa própria ou a pedido dos meios de comunicação social, sem que, para qualquer dos casos, tenham obtido autorização prévia da Direcção Superior”.

impõe que os trabalhadores informem “os respectivos superiores hierárquicos de eventuais suspeitas que tenham  relativamente a comportamentos e situações ilícitas, violadoras do previsto no presente Código e/ou regulamentação interna da DGAJ”.

o primeiro ponto não me choca propriamente. apenas me entristece que seja necessário redigir um documento de onde constem estes princípios básicos, referentes ao trabalho em open space, seja numa instituição pública ou privada. deveria haver uma espécie de bom senso generalizado, pautado essencialmente pelo respeito pelos outros e pelo trabalho.

quanto aos outros pontos, fica assim uma espécie de sabor ácido na boca quando se fala em “dever de informar os respectivos superiores hierárquicos de eventuais suspeitas que tenham  relativamente a comportamentos e situações ilícitas (…)”

sempre me questionei como seria ter vivido no período prévio ao 25 de abril de 74… parece que já estive mais longe de conhecer esta realidade…

e isto somado à proposta de alteração da lei da cobertura mediática dos atos eleitoriais, é caso para nos deixar alerta…

just saying…

|se a moda pega|

|back from outta space|

parar.

parar durante uns dias para organizar e arrumar a casa.

é altura das limpezas de primavera, é tempo de lavar paredes, abrir janelas e chafurdar na água que irá lavar toda a morrinha do inverno.

as limpezas de primavera permitem arrumar a cabeça, organizar as estantes, arrumar assuntos e arranjar espaço para novos temas, novas letras, novas ideias.

parar nesta altura do ano é imprescindível. esta pausa trará novo fôlego para novos projetos, trará uma energia renovada.

apesar de tudo o que as mudanças e as limpezas têm de bom, esta pausa teve um sabor um pouco agridoce. é difícil descolar da pele o sabor ácido de outros tempos, do tempo em que ficar por casa se devia ao sentimento de inutilidade que me haviam imputado.

um sabor agridoce devido ao sentimento de culpa por tudo e por nada que me assola. culpa por não ser omnipresente, culpa por não ter mais do que dois ombros nem mais do que dois braços. culpa por não ter super-poderes que me permitam resolver os meus e os problemas dos outros.

muita água já rolou, muita espuma já se formou e lavou os dias que se passaram.

é altura de voltar. é altura de regressar, arregaçar as mangas e agarrar em tudo o que há de bom. é altura de dar espaço para que coisas possam ter lugar e espaço para acontecer.

|back from outta space|