isto pode parecer demasiado bíblico mas é sempre um dilema.
em tempos ainda debati com um amigo sobre a legitimidade dos donativos, de dar ou não dinheiro sob pena de, num ato de total desgoverno ou falta de noção, um desgraçado o gastar em “porcarias”, em coisas que só lhe fazem mal.
a conversa surgiu no seguimento de um artigo de Miguel Esteves Cardoso – “Contra os Pobres” (2014)
“É a mesma irracionalidade desempática que leva as pessoas a dar esmolas condicionadas: dão comida mas recusam-se a pagar não só heroína e vinho como – juro que já são mais de mil vezes que testemunhei – bolos e gelados.”
quatro anos depois, este tema volta à mesa (de onde nunca saiu, acho eu). pedem-me ajuda. pedem-me roupas quentes, cobertores, calçado e meias – muitas meias – e cuecas. pedem-me copos de plástico, tigelas, colheres, guardanapos, sacos de plástico. pedem-me marmelada, queijo, mortadela, pão. pedem também dinheiro, se for possível, para comprar legumes para a sopa quando a que lhes dão não chega. ou para sumos. ou para qualquer outra coisa que não lhes tenha sido dada e que faça falta para aquecer um pouco quem nada tem.
mais do que bens e dinheiro, pedem-me que esteja lá. que vá lá e veja o que se passa.
mais do que me pedirem para ir ver, mostram-me fotos e vídeos. mostram-me rostos, mostram-me mãos. mostram-me a pouca dignidade de quem tudo perdeu.
Eh pá!
são cada vez mais os mais novos. cada vez mais vês ali alguém que poderá ter a tua idade ou talvez menos.
passado o choque, tu, que até foste criada sob o catolicismo, pensas no lado evangelizador. e tirar estas pessoas da rua? e dar-lhes condições para que possam ir procurar emprego? e encaminhá-los para que possam fazer um tratamento e deixar o vício? quem nunca pensou isso? ensiná-los a pescar?
se eles 99% das vezes não querem. acho que nem têm como querer, tal é a espiral que se vêem envolvidos.
e porque é que eu tenho de ajudar quem não “quer” fazer pela vida? quem não “quer” trabalhar? quem não “quer” a responsabilidade de ter um emprego, uma casa, uma família e contas para pagar?
porque, tal como diz a minha mãe, “podias ser tu. podias ser tu nessa espiral”.
debato-me com o compromisso. debato-me com a proximidade. debato-me com este lado esquerdo que se tornou tão mole, com esta pele que se tornou tão fina ou com este órgão que se tornou tão musculado que quase que bate fora do peito.
dar o peixe ou ensinar a pescar?
dar, pois não tenho ainda em mim o lado pedagogo bem desenvolvido.