|sobre um amor que deveria ser incondicional e irrevogável (à maneira antiga)|

os dias não vão fáceis e as notícias são da maior podridão que pode haver.

desde a passada semana que assistimos a um rol de cenas macabras, de cenários negros e de profunda podridão da sociedade atual, da sociedade à qual eu pertenço e pela qual, também eu me sinto responsável.

não sei o que me surpreende mais… se a maldade dos putos, se o voyeurismo exacerbado dos dias de hoje… não entendo a necessidade de exibir a maldade como um troféu, a necessidade de atuar como “o olho que tudo vê”, a vontade de linchar e julgar em praça pública aquilo que são os podres da sociedade em que vivemos [este aspecto ficará para um outro post].

mas sei que me surpreende – e muito – a total “desordem” dos valores que para mim são básicos e essenciais: o amor maternal ou paternal, o respeito por mim e pelos outros e a liberdade [a qual me ensinaram que termina assim que começa a liberdade do outro].

depois de ler o artigo de Daniel Oliveira – gosto muito de muitas das sua crónicas – não podia estar mais entristecida pela “sacudidela de água do capote” que se assiste por estes dias.

não digo que os pais sejam culpados de tudo, pois, de facto, não o são. mas, em última instância, a condição de pai ou mãe presume um tal sentimento de posse, de responsabilização e de amor pelas suas crias, criando um cenário onde não há margem possível para uma desvinculação perante os atos dos filhos.

“Deus me perdoe o que vou dizer, o meu filho morreu, o que fez vai ter de pagar e sozinho, pois não posso acompanhá-lo nesta etapa. (…) Devia ser entregue para fazerem justiça pelas próprias mãos, é um desgosto muito grande, um pesadelo. A minha vida acabou, preferia mil vezes que ele estivesse no lugar do Filipe. Talvez um dia ele me perdoe por não o ter acompanhado, mas perante a situação não dá mesmo. Os pais não têm de pagar pelos erros dos filhos e vice-versa. (…) Peço perdão, não posso fazer mais nada nesta hora.” Quem escreveu estas linhas, no Facebook, esse confessionário global onde a intimidade é quotidianamente massacrada, foi a mãe de Daniel, o rapaz de 17 anos que terá cometido o homicídio de Salvaterra de Magos.

“Não julgo – como poderia julgar –as responsabilidades da mãe do Daniel pelo crime que ele cometeu. Apenas não posso, sem precisar de mais nada para além do meu instinto paternal, de deixar de me arrepiar com a forma como esta mãe oferece à comunidade, na busca de perdão para si, o seu filho para sacrifício. Só uma relação extraordinariamente deformada pode levar uma mãe a desejar a morte de um filho e a desistir dele nos piores momentos. Para julgar o Daniel estamos cá todos. Os pais amam irremediavelmente as suas belas e horrendas criaturas. E quando não amam estão amputados de forma brutal na sua existência. Podem procurar no filho a responsabilidade do seu desamor. Mas é provável que estejam à procura no lugar errado.

Mas ainda mais arrepiante do que a frase da mãe, que a perturbação, o sofrimento ou o medo podem explicar, é ler os comentários de pessoas que não estão emocionalmente envolvidas no caso e vê-las aplaudir estas frases arrepiantes, como se precisassem que a mãe do homicida se juntasse ao coletivo de juízes. Como se a singularidade do amor maternal e paternal não fosse a de até um homicida o merecer. E ao ver que nem isto é óbvio, percebo mais uma vez que o que vivi não chega para compreender todas as partes negras da vida. Nem a de que haja tanta gente que não sinta que o amor pelos seus filhos é incondicional e irrevogável. Acima do bem e do mal.”

|sobre um amor que deveria ser incondicional e irrevogável (à maneira antiga)|

|se a moda pega|

seremos bem capazes de recuar mais de 40 anos no tempo…

Senão vejamos:

“manter o seu espaço de trabalho arrumado e minimizar a utilização de objectos pessoais”; “utilizar apenas as zonas demarcadas para circulação, mesmo que seja este o percurso mais longo”; “evitar falar num tom de voz elevado com outros trabalhadores no mesmo espaço ou ao telefone fixo ou móvel; e “colocar o telemóvel em modo discreto”.

“Os trabalhadores não podem conceder entrevistas, publicar artigos de opinião, fornecer informações ou publicitar textos de qualquer natureza, que não estejam ao dispor do público em geral, por iniciativa própria ou a pedido dos meios de comunicação social, sem que, para qualquer dos casos, tenham obtido autorização prévia da Direcção Superior”.

impõe que os trabalhadores informem “os respectivos superiores hierárquicos de eventuais suspeitas que tenham  relativamente a comportamentos e situações ilícitas, violadoras do previsto no presente Código e/ou regulamentação interna da DGAJ”.

o primeiro ponto não me choca propriamente. apenas me entristece que seja necessário redigir um documento de onde constem estes princípios básicos, referentes ao trabalho em open space, seja numa instituição pública ou privada. deveria haver uma espécie de bom senso generalizado, pautado essencialmente pelo respeito pelos outros e pelo trabalho.

quanto aos outros pontos, fica assim uma espécie de sabor ácido na boca quando se fala em “dever de informar os respectivos superiores hierárquicos de eventuais suspeitas que tenham  relativamente a comportamentos e situações ilícitas (…)”

sempre me questionei como seria ter vivido no período prévio ao 25 de abril de 74… parece que já estive mais longe de conhecer esta realidade…

e isto somado à proposta de alteração da lei da cobertura mediática dos atos eleitoriais, é caso para nos deixar alerta…

just saying…

|se a moda pega|

|back from outta space|

parar.

parar durante uns dias para organizar e arrumar a casa.

é altura das limpezas de primavera, é tempo de lavar paredes, abrir janelas e chafurdar na água que irá lavar toda a morrinha do inverno.

as limpezas de primavera permitem arrumar a cabeça, organizar as estantes, arrumar assuntos e arranjar espaço para novos temas, novas letras, novas ideias.

parar nesta altura do ano é imprescindível. esta pausa trará novo fôlego para novos projetos, trará uma energia renovada.

apesar de tudo o que as mudanças e as limpezas têm de bom, esta pausa teve um sabor um pouco agridoce. é difícil descolar da pele o sabor ácido de outros tempos, do tempo em que ficar por casa se devia ao sentimento de inutilidade que me haviam imputado.

um sabor agridoce devido ao sentimento de culpa por tudo e por nada que me assola. culpa por não ser omnipresente, culpa por não ter mais do que dois ombros nem mais do que dois braços. culpa por não ter super-poderes que me permitam resolver os meus e os problemas dos outros.

muita água já rolou, muita espuma já se formou e lavou os dias que se passaram.

é altura de voltar. é altura de regressar, arregaçar as mangas e agarrar em tudo o que há de bom. é altura de dar espaço para que coisas possam ter lugar e espaço para acontecer.

|back from outta space|

|embrutecer|

em·bru·te·cer |ê|
(em- + bruto + -ecer)

verbo transitivo e pronominal

Tornar ou ficar bruto, estúpido ou brutal. = EMBRUTAR

[de acordo com o priberam]
o tempo passa e é isto o que eu sinto. sinto-me tomada pelo meu lado mais bruto, mais frio, mais distante, mais sarcástico.
não que tenha perdido a capacidade de me deslumbrar, de me enternecer, de abraçar e de me deixar abraçar, mas reservo este momentos apenas para com aqueles que me são mesmo muito especiais, para aqueles que me conhecem até às entranhas e que percebem um esgar de dor mesmo atrás do meu melhor sorriso.
há dias, num jantar com amigos com quem já não estava há realmente muito tempo, percebi que o meu sentido de humor mudou nos últimos tempos. percebi que a minha paciência para determinados temas está longe de ser a mesma e percebi que facilmente relativizo as situações que me são mais incómodas.
enquanto segurava o copo de vinho entre os dedos dei por mim a pensar em tudo o que havia acontecido desde a última vez que estivemos juntos…
oh, pá!| tanta coisa aconteceu pelo meio! tanta coisa boa, tanta coisa má, tanta pedra e tão pouco sol…
impossível não embrutecer, impossível não colocar uma casca dura a servir de proteção…impossível não relativizar.
oh, pá! estou mesmo a ficar um bloco de gelo!
não, nada disso… estás mais vivida e o sarcasmo é apenas um refinamento do teu sentido de humor – ouviu-se do outro lado da mesa.
dias depois, essas palavras ainda fazem eco na minha cabeça, ainda deambulam de cá para lá, ainda me assolam quando pego nos meus sobrinhos ou quando abraço o meu afilhado já tão crescido… ainda fazem mossa quando me encolho e me encosto para dormir e me agradeces ao ouvido por tudo o que temos vivido juntos. e eu agradeço baixinho por estarmos juntos.
|embrutecer|

|aprender a gostar|

o tempo tem destas coisas. ensina-nos a gostar.

aprendemos a apreciar novos paladares, novos odores, novos sons.

o passar do tempo pode até, talvez, criar mais barreiras, mais pré-conceitos, mais pré-juízos. pode até restringir a capacidade de de nos deixarmos levar, de nos deixarmos seduzir e ludibriar pelos sentidos.

mas o passar do tempo também nos traz algum discernimento, uma certa tranquilidade e serenidade que nos permite apreciar novos [e antigos] sabores, odores e formas. a idade educa os sentidos. e com o passar dos anos aprendi a gostar da língua francesa.

no cinema, na literatura e na música.

Paris não é a minha cidade-fetiche; não delirei com Paris, mas deliro sempre com a vontade de lá voltar e de conhecer um pouco mais de um país que nunca me fascinou mas que agora me deixa curiosa.

|aprender a gostar|

|uma casa num abrir e fechar de olhos|

chamam-lhe “um refúgio inteligente” e foi desenvolvido pela NOEM, em Espanha.

El-Refugio-Inteligente-by-NOEM-1

apresenta-se como um conceito de habitação “smart”, na medida em que permite que o seu proprietário controle a casa pela via remota, simplesmente através de um equipamento mobile.

trata-se de um refúgio que corresponde a parâmetros de energia sustentável, recorrendo a materiais recicláveis, como a madeira prefabricada.

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pequeno, concentrado, mas com tudo a que se tem direito num pequeno refúgio!

 

 

> Créditos | Artigo visto em Freshome 

> Créditos | Fotos de Meritxell Arjalaguer

|uma casa num abrir e fechar de olhos|

|chamam-lhe “democratização”|

há até quem lhe chame “progresso”, “evolução”.

o certo é que, hoje em dia, todos nós comunicamos. todos temos algo a dizer e podemos fazê-lo para uma vasta audiência [e aqui, contra mim falo, pois dedico-me a escrever neste espaço coisas que não interessam nem ao menino Jesus]. e muitos de nós escudam-se no monitor e no teclado e tecem longos e aprofundados comentários por essas redes sociais fora, nos fóruns dos órgãos de comunicação, etc. dissertam sobre a vida dos outros, opinam sobre os “casos do dia”, prestam [ainda] aconselhamento aos mais diversos níveis. de forma gratuita. sabem de cor o que os outros pensam ou dizem pensar, e que aquilo que dizem não é o mesmo que aquilo que pensam. e comentam-no. nas redes sociais ou nos fóruns. por vezes, comentam a vida privada dos mesmos, dos visados nos artigos de opinião ou noticiosos.

nada contra.

a não ser o assassínio da língua portuguesa [mesmo que digam que a culpa é do Novo Acordo Ortográfico].

é vê-los a confundir os “ás” com os “às”, os “às” com os “hás”, o “-se” com o “sse”… são tantos, mas tantos os exemplos que por aí andam!!! mesmo em órgãos de comunicação social de referência, mesmo em comentários de pessoas aparentemente eruditas e que até dominam o tema, mesmo em artigos de pessoas chamadas de “líderes de opinião”.

a título de exemplo:

“foje-lhe a boca para a verdade”

“estives-te muito bem”

“sem doze nenhuma de realismo”

“self-made mans”

“ainda à muita coisa mal explicada”

“quéro ver”

“à indicios que”

não sou o suprassumo da língua portuguesa, não digo que não erre [e escrevo essencialmente com minúsculas no início das frases porque me apetece, apenas e só, digam lá o que disserem]. tenho dúvidas muitas vezes, e faço do Priberam o meu melhor amigo, e uso e abuso do Google Translator, e escrevo e reescrevo vezes sem conta para ver se me parece bem [ok, às vezes, escrevo de rajada. só porque me apetece]. tento ter cuidado com a forma pois pode adulterar todo o conteúdo, e toda a minha intenção.

já não me chegam os facebooks desta vida, onde temos que fazer um esforço sobrehumano para perceber o que lá está escrito. É o “assério”, o “ama mos”, o “amote”; é a falta de acentos [e não de assentos], a falta de pontuação, a falta de lógica. são, muitas vezes, as frases longas, sem pontos nem vírgulas, e que perdem todo o sentido ao fim de quatro linhas.

é o nosso idioma, caramba! no mínimo, devemos saber o que estamos a escrever e como estamos a escrever!

o problema não são as letras pequeninas de muitos contratos. muitas vezes, o problema está no facto de se desconhecer a língua portuguesa.

parece-me crítico, no mínimo.

[ou isto é apenas Monday Mood]

|chamam-lhe “democratização”|

|fecho central|

é o “click” do fecho central das portas do carro que liga e desliga a minha mente.

mal saio de casa, é este pequeno barulho que coloca o meu cérebro em modo “pro” e me impede de afundar nos meus próprios problemas, nos assuntos pessoais, nas confusões que se arrastam porta de casa adentro. é este “click” que me permite focar no essencial, que me permite concentrar e resolver as questões profissionais que me absorveram durante toda a semana.

este “click” dá-se segundos depois de colocar o carro em marcha, tão rápido quanto o diabo esfrega um olho. a partir daqui, entramos em modo piloto automático, com uma série de questões em mente, processos, listagens, plantas e mapas. o momento é único e exige concentração máxima.

horas depois, regresso ao carro e dá-se novo “click”. agora é tempo de voltar a casa. é tempo de pegar na vida que estava em stand-by e reactivá-la. é tempo de pegar na vida e resolver. um problema de cada vez. é tempo de pegar na vida e encontrar novos caminhos.

enquanto vou no carro, permito-me a que as lágrimas corram, permito-me a ver tudo de forma nublada. este é o meu espaço, é o meu tempo. aqui não tenho de ser forte, não tenho de ser optimista, não tenho de sorrir quando por dentro já me desfiz em mil pedaços.

e recordo-me de Fernando Pessoa.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

e, nisto, regresso a casa. sorriso nos lábios, voz tranquila e olhos secos.

regresso a casa e dá-se novo “click”. agora em modo “super-mulher” [e “super-filha” e “super-irmã” e “super-tia” e “super-madrinha”].

movo mundos e fundos. transporto a dor e as angústias dos outros para outros mundos. faço das tripas coração, e da cabeça um veículo motorizado.

|fecho central|