|claramente, não fui feita para isto|

[aliás, ainda estou para descobrir para o que é que eu fui feita]

tratar de questões de responsabilidade social está a ser o maior dos meus pesadelos. a minha maior luta.

quero ajudar e dar resposta a todos os pedidos que me chegam. fico com pena de todos. emociono-me com todas as histórias. fico com voz trémula ao telefone e não consigo não deixar cair uma lágrima nas conversas ao vivo.

até ler alguns emails e preparar a resposta está a ser suficiente para me deixar com os olhos marejados.

quéesta merda?!

estarei “naqueles dias”?

[não sei bem que dias são estes mas esta é daquelas coisas que deve ser como a história das bruxas]

Rais parta que ninguém me preparou para isto!

e hoje tá difícil… parece que história atrai história e hoje toda a gente decidiu partilhar comigo verdadeiras histórias “de vida” (algumas mais de morte do que de vida, mas enfim).

carambas, pá!

numa tentativa de descomprimir dou de caras com alguém que soube dar a volta. ou melhor, consiguiu mostrar que não faz mal rir da desgraça. Nora McInerny é autora de um podcast incrível onde é possível ouvir falar de assuntos”pesados” de forma leve. em “Terrible, Thanks for Asking”, Nora fala um pouco sobre como a sua experiência a ajudou a ver as tragédias de outra forma e mostra-se uma “radialista” com um sentido de humor espetacular.

[assim, a talho de foice, Nora abortou quando estava grávida do segundo filho, perdeu o pai e perdeu o marido, ambos com cancro, num espaço de poucas semanas.]

tem um instagram espetacular, bem como as crónicas que escreve para a Elle.

haverá dedicatória mais bonita???

hoje foi a minha companhia a caminho de casa.

se isto poderia ser mais “deprê”? podia, mas não seria a mesma coisa.

Anúncios
|claramente, não fui feita para isto|

|escrever para não esquecer|

[mesmo tendo a noção que, em menos de três meses, me estarei a arrepender]

ontem pensava sobre a questão dos filhos.

ter um ou mais filhos.

amar ou não amar da mesma forma o primeiro e o segundo filho.

preferir ou não um filho em detrimento do outro.

identificar-se mais com um que com o outro.

e dei por mim a olhar para a minha filha e a pensar que ela é exatamente aquilo que eu gostaria que ela fosse enquanto bebé/criança. despachada, com uma vontade enorme de fazer tudo sozinha. desinibida mas sem gostar muito de confusões. capaz de rir das asneiras dos outros, mas, principalmente, capaz de rir dela própria. e que gargalhada sonora ela tem!

um desafio constante, um acordar lento e difícil, uma necessidade incrível do seu tempo e do seu espaço. e um doce! meiga que dói para com os seus!

tem também o lado das birras, da teimosia, da falsa autonomia. tem o caso dos amuos só porque sim. tem ainda a questão do sono e das difíceis birras de sono.

tem o lado difícil bem colado ao fácil. por muito que me digam que isto é da idade e que, com 2 anos, são todos assim, certo é que eu não tenho mais nenhum e sempre que a observo, sempre que faço o exercício de relativizar as suas ações, percebo que que estou exatamente onde queria estar, e com quem queria estar.

|escrever para não esquecer|

|dar o peixe ou ensinar a pescar|

isto pode parecer demasiado bíblico mas é sempre um dilema.

em tempos ainda debati com um amigo sobre a legitimidade dos donativos, de dar ou não dinheiro sob pena de, num ato de total desgoverno ou falta de noção, um desgraçado o gastar em “porcarias”, em coisas que só lhe fazem mal.

a conversa surgiu no seguimento de um artigo de Miguel Esteves Cardoso – “Contra os Pobres” (2014)

“É a mesma irracionalidade desempática que leva as pessoas a dar esmolas condicionadas: dão comida mas recusam-se a pagar não só heroína e vinho como – juro que já são mais de mil vezes que testemunhei – bolos e gelados.”

quatro anos depois, este tema volta à mesa (de onde nunca saiu, acho eu). pedem-me ajuda. pedem-me roupas quentes, cobertores, calçado e meias – muitas meias – e cuecas. pedem-me copos de plástico, tigelas, colheres, guardanapos, sacos de plástico. pedem-me marmelada, queijo, mortadela, pão. pedem também dinheiro, se for possível, para comprar legumes para a sopa quando a que lhes dão não chega. ou para sumos. ou para qualquer outra coisa que não lhes tenha sido dada e que faça falta para aquecer um pouco quem nada tem.

mais do que bens e dinheiro, pedem-me que esteja lá. que vá lá e veja o que se passa.

mais do que me pedirem para ir ver, mostram-me fotos e vídeos. mostram-me rostos, mostram-me mãos. mostram-me a pouca dignidade de quem tudo perdeu.

Eh pá!

são cada vez mais os mais novos. cada vez mais vês ali alguém que poderá ter a tua idade ou talvez menos.

passado o choque, tu, que até foste criada sob o catolicismo, pensas no lado evangelizador. e tirar estas pessoas da rua? e dar-lhes condições para que possam ir procurar emprego? e encaminhá-los para que possam fazer um tratamento e deixar o vício? quem nunca pensou isso? ensiná-los a pescar?

se eles 99% das vezes não querem. acho que nem têm como querer, tal é a espiral que se vêem envolvidos.

e porque é que eu tenho de ajudar quem não “quer” fazer pela vida? quem não “quer” trabalhar? quem não “quer” a responsabilidade de ter um emprego, uma casa, uma família e contas para pagar?

porque, tal como diz a minha mãe, “podias ser tu. podias ser tu nessa espiral”.

debato-me com o compromisso. debato-me com a proximidade. debato-me com este lado esquerdo que se tornou tão mole, com esta pele que se tornou tão fina ou com este órgão que se tornou tão musculado que quase que bate fora do peito.

dar o peixe ou ensinar a pescar?

dar, pois não tenho ainda em mim o lado pedagogo bem desenvolvido.

|dar o peixe ou ensinar a pescar|

|criar novas rotinas|

desabituei-me de escrever.
para além dos e-mails, das mensagens, dos whatsapp’s, dos (raros) comentários nas redes sociais, quase não escrevo.
e sinto dificuldade em articular ideias. sinto dificuldade em estruturar o pensamento de forma coerente e de o registar.
dos ficheiros em excel e das notas breves no oneNote pouco se aproveita.
são tópicos, são ideias mal alinhavadas, anotações pouco ou nada produtivas.
tal como este emaranhado de palavras que para aqui vai e que só serve para uma coisa: fazer as pazes com o teclado. voltar a escrever sem bullets e sem ser dentro de uma grelha. tentar articular uma frase completa. ou, pelo menos, aproximar-me disso.
consegui voltar a ler. consegui disciplinar-me e voltar às anteriores rotinas de ler em papel.
preciso mesmo de voltar a registar as ideias de forma coerente.
e preciso mesmo de voltar a estudar. sinto uma enorme necessidade de aprender mais sobre a minha área. de dominar aquilo que me fugiu da mão e com o qual me vejo agora confrontada.
comparo-me com os outros, com os seus mapas e planos de ação, com os seus ficheiros ultra completos e cheios de tabelas dinâmicas.
eu tenho de me fazer valer pelas ideias e pela palavra.
foi para isso que fui contratada e é por aí que tenho de fazer a diferença.
não posso achar que tudo o que os outros fazem ou dizem vale mais do que aquilo que tenho para dar.
por alguma razão estou onde estou e é por aí que tenho de seguir.

desabafo em jeito de exercício de escrita feito. agora é voltar ao trabalho e preparar conteúdos para que outros lhe dêem formas bonitas.

|criar novas rotinas|

|queen|

foi com a música de queen que comecei o dia.
quer dizer, que comecei a minha viagem.
voltei ao carro e voltei ao meu tempo para organizar as minhas ideias antes de começar a trabalhar. aproveito a viagem de carro para ouvir música, para respirar e olhar em volta, sem ser através do telemóvel ou do computador.
estou a habituar-me a novos percursos, novas vistas. a habituar-me a não ver a rua ao longo do dia. a rua, as pessoas, a agitação e os engarrafamentos da praça dos leões.
faz-me falta a praça e as janelas.
faz-me falta encontrar outra coisa que me faça bem aos olhos e à cabeça.
seguimos pela música que também ajuda.

Don’t stop me now

|queen|

|36 e agora? |

Agora?!

Agora preciso de um novo projeto, um novo desafio que me permita fazer coisas bonitas, que me permita conhecer projetos de valor, que me permita trabalhar com uma equipa onde todos se sintam valorizados.

Os 35 trouxeram uma grande mudança profissional. Um novo desafio, uma marca brutal e uma entidade com capacidade de investimento para fazer a diferença.

Trabalhei – e trabalho – como se não houvesse amanhã, dedico-me de corpo e alma, vibro com as pequenas vitórias e morro com as pequenas derrotas… se não consigo dar resposta a tudo o que me pedem, sinto sempre que sou eu que falho e nunca que tenho coisas a mais sobre mim…

E estou cansada de falhar. Estou cansada de não ser capaz de me organizar e de planear. Estou cansada de não conseguir traçar um plano e desenvolvê-lo…

Já há muito que cá não vinha mas preciso de fazer as pazes comigo mesma…

Preciso de voltar a focar-me nos meus, de voltar a controlar a minha vida e a minha casa.

Preciso de voltar a prestar atenção ao que me rodeia, de levantar a cabeça e olhar para além das folhas a frente do meu nariz.

Os 36 servirão para isso mesmo: foco e visão periférica.

|36 e agora? |

|da série “coisas que nunca vou entender” #1|

nunca vou perceber porque é que a pessoa está parada na paragem de autocarro – ou noutro sítio qualquer da via pública – descalça um chanato e desata a esfregar o pé na perna…
junte-se o facto de não perceber porque é que os homens usam chinelos “de piscina” em plena baixa da cidade… nem sequer estão com jeito de quem veio/vai do/para o rio/praia…

|da série “coisas que nunca vou entender” #1|

|a passo e passo|

aos poucos voltar ao que era.
voltar a ter tempo para ler, para escrever, para pensar.
aproveitar os tempos mais calmos, em que o escritório parece quase vazio, e organizar as ideias.
preparar listas com almoços e jantares, listas de compras, listas de coisas a fazer.
esta nova realidade – papel de mãe + novo emprego – desorientaram-me completamente fazendo com que as dificuldades em manter o foco sejam enormes.
aos poucos consegui voltar a encontrar tempo para ler [sem adormecer entre uma página e outra]. consegui acabar o livro que começara há meses e ter já um novo a meio.
aos poucos, consegui voltar aqui. para ler o que por cá se passa e para descomprimir entre teclas.
aos poucos, a passo e passo, vou conseguindo pensar numa outra dimensão que não apenas aquela que me ocupa a grande maioria do tempo.

|a passo e passo|